quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Como me Arrependo

Não tenho mais a idade que torna tudo mais fácil, envelheci e com a velhice todos os problemas que trazem ao corpo, e são tantos os desconfortos.
Tantos anos se passaram e o que fiz de minha vida nestes anos que se foram, refletir sobre mim agora, com toda a força do passado, desrespeitando o meu presente.
Todo o crédito que me foi dado em minha juventude agora me é cobrado.

 Eu que vivi todos aqueles momentos no mais puro egoísmo, sem me preocupar com minha velhice, fiz e desfiz explorando sentimentos, maltratando corações, hoje estou só e amargo o peso da solidão e o desconforto de não ter a quem esperar nos dias de visitas. Justo muito justo, hoje tenho a consciência do significado das palavras: colhemos o que plantamos. O que plantei na juventude foi desprezo, vaidade, egoísmo e muito ressentimento.


De uma família de quatro irmãos e irmãs, fui o mais beneficiado por meus pais, que não tinham muito e não podiam dar um bom estudo a todos. Fui escolhido por ser o mais talentoso dos filhos. Sobre mim foram depositadas todas as esperanças de dias melhores para toda a família, principalmente na velhice de meus pais. Gostava de aprender e tinha um enorme prazer de estudar. de quem recebi total apoio, me formei, e por ter me formado sendo um dos melhores alunos do colégio, ganhei uma vaga como estagiário em uma grande empresa.
Em minha vida, tudo passou a dar certo e, em pouco tempo, me tornei vice-presidente de uma das principais indústrias de alimentos. O dinheiro e o poder caíram sobre mim como um raio que queimou toda sensibilidade positiva, deixando minhas raízes impregnadas com as pragas que conduzem as criaturas a serem desprezadas.


Orgulho, me tornei uma criatura orgulhosa e totalmente negativa, me afastei da família, passei a ter vergonha, desprezei a família que tinha, desprezei os amigos dos tempos da inocência e me misturei com novos supostos amigos, e com alguns deles me embrenhei pelos caminhos da orgia.
Minha vida passou a ter o dia no trabalho e a noite com mulheres e muita bebida, até que experimentei meu primeiro cigarro de maconha, e não parei mais.
Minha mente foi se tornando escrava de tantos vícios. Em pouco tempo, perdi meu emprego, perdi minha identidade e todos os supostos amigos, eu estava só. Em pouco tempo, o vício tirou de mim tudo, até minha inteligência, eu já não era mais eu.

Meu pai e minha mãe, que poderiam ter vivido um pouco mais se tivessem tido a minha ajuda, se foram e meus irmãos e irmãs me odiaram pelo desprezo que dediquei a eles quando pensava ter tudo.
Aos poucos fui me afundando dia a dia no buraco que eu mesmo cavei, sem emprego e totalmente viciado, perdi o controle de minha vida e acabei pelas ruas. Perdi tudo, tudo mesmo, até a vontade de viver, me transformei em um trapo humano que causava nojo às pessoas. O vício que se aliou ao meu orgulho desfez meu caminho de glórias, conduzindo minha vida ao desesperado desejo de deixar de viver. Não foi difícil, no desespero em que eu me encontrava, não pensar em mais nada a não ser em morrer.


Foram tempos difíceis os que passei, só me lembro de quando acordei em um leito de hospital, não estava nada bem, as marcas da violência que pratiquei contra mim estavam ali no meu corpo diante de meus olhos, eu havia atentado contra minha vida, me odiei mais e mais por não conseguir pôr um fim a todo o meu sofrimento e o pior, adquirir um sofrimento a mais, não tinha mais os movimentos de minhas pernas, fui punido pela vida por ser tão covarde. 

Do hospital, mudei-me para um abrigo de idosos, que é onde ainda estou, e todos os fins de semana aguardo ansioso pela visita de meus irmãos ou de minha irmã.


Tantos anos se passaram e deles não tive o perdão. Hoje sou um velho, coração amargurado, reconheço que não fui um bom lavrador, do que plantei nada prestou, porém me sinto arrependido e tão necessitado do perdão dos que são a minha família, que ontem ignorei mais que hoje a me ver tão sozinho recorro com humildade em busca do perdão. 

A vida não perdoa nossos erros depois que o pior acontece, o arrependimento nem sempre é a porta para o alívio de nossa consciência. Amargo dias de completa solidão, já não tenho mais esperanças de conseguir meu perdão, perdi minha boa história de vida e mergulhei-me em um poço profundo onde fui envolvido por toda a energia negativa que acumulei nos tempos em que me sentia o senhor todo poderoso, hoje eu não passo deste ser horroroso, ignorado por todos, esperando o meu fim.




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