segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A CARTA PRESENTE QUE MUDOU MINHA VIDA

 A CARTA PRESENTE QUE MUDOU MINHA VIDA.

Quanto ódio em teu coração, meu filho, jamais conseguirás ser feliz com tanto rancor lhe atormentando a vida, o que passou, passou. Para que seguir regando uma planta que não tem mais suas folhas, não terá mais flores e nem terá mais frutos?
Filho, não vale a pena cultivar este tipo de planta, uma planta proibida a todos que sonham um dia encontrar um pouco de felicidade. O ódio é uma praga na vida de quem o cultiva, não tranque teu coração com raízes desta praga, não se torne como ele, teu pai que por uma má escolha fez da vida dele uma estrada onde só deixou para trás sofrimentos e ódio. Esqueça o que passamos, as dificuldades que enfrentamos para chegarmos até aqui. Não temos muito mais, ontem não tínhamos nada e juntos, mãe e filho, conseguimos mudar o rumo de nossas vidas.


Filho, não vivemos mais nas ruas, temos nossa casinha humilde. Sim, quando chove, tem goteiras, mas são tão pequenas que mal nos incomodam. Tenho minha cama, não tenho um colchão macio, um lençol colorido cheiroso, um cobertor capaz de me aquecer para valer, mas já não sinto mais frio, tenho uma cobertinha que me aquece e o mais importante, comprada com meu dinheiro, o nosso dinheiro, não temos uma mesa farta, mas já não passamos mais fome.

Filho, quanto nossa vida mudou, vencemos a miséria e, com isto, passamos a uma vida de pobreza, mas saímos da miséria e juntos podemos ir ainda mais longe, nos afastar de vez de todo o nosso passado de tantos sofrimentos.  Nossa vida é uma história, meu filho, que começou na miséria onde tanto eu como você fomos fragilizados pela força poderosa da falta de tudo, principalmente esperanças e fé, falta de amor por nós.
Ontem passou, deixemos que ele continue no passado, hoje você é um jovem que vai completar amanhã seus quinze anos, foram sofridos, mas vencidos, pois deixamos as ruas e tudo de ruim que elas representaram para nós nestes longos anos de escuridão.
Hoje, filho, somos alguém, temos um teto e seremos muito mais, pois nos amamos e estamos juntos e juntos podemos quase tudo, podemos continuar a ser felizes.
Guardo comigo esta carta, escrita por minha mãe e deixada sobre minha cama ao lado do presente de aniversário quando eu completava meus quinze anos.
Foram quinze anos cultivando revoltas com as lembranças que tinha de meu pai e de sua covardia para conosco.

Filho das ruas, nasci em um canto qualquer, sobrevivi porque DEUS tinha uma missão para mim que era fortalecer minha mãe, auxiliando-a a se salvar de um caminho que ela não merecia estar, viver sob os domínios dele, sendo a miséria e todos os outros vícios que a acompanham.
Não vou contar agora a história de vida de minha mãe, quem sabe no futuro eu escreva um livro relatando tudo. Agora conto um pouco da minha história, pois acordei com vontade de falar, desabafar e assim sempre que meus olhos percorrem esta folha de papel passo a passo, palavras por palavras, de todos os presentes que já ganhei em minha vida, esta carta foi o melhor de todos, pois, graças a ela, as palavras nela escritas mudaram o tom de minha vida.
Tenho hoje vinte e nove anos, sou um cidadão neste meu país, sou um vencedor, pois de onde vim só existem perdedores. Sou um dos poucos que conseguiram mudar o rumo da história de nossas vidas, minha e de minha mãe. Tenho guardadas boas lembranças dela. Devo a ela o homem que hoje sou, pois ela soube conduzir nosso destino. O amor que sempre teve por mim deu a ela forças para mudar nossa história.
Como sofreu minha mãe, me lembro dos poucos anos em que meu pai se fazia presente em nossas vidas. Um ser sem sentimentos, tomado pelo lado negro, totalmente perdido no vício, fazia com minha mãe todo tipo de maldades, mas a pior delas era quando ele começava a agredir a mim, teu próprio filho, tudo pela necessidade que o vício exigia de seu corpo.
Minha mãe era obrigada a trazer das ruas bebida, fumo e até outros tipos de drogas. Ele não se importava com a fome, pois ele só tinha sede. Eu me lembro vagamente de ter meus quatro anos quando minha mãe deu o primeiro passo para mudar nosso destino.
Lugar miserável, vida miserável, destino miserável, amor doentio, não quero isto, não quero nada disto mais em minha vida, me lembro dela chorando e extravasando todo sentimento de revolta. Eu estava a seu lado, ouvi cada palavra, cada frase e foi naquele exato momento que nossa vida deu o primeiro passo para novos tempos.
Lembro que minha mãe me tomou nos braços chorando. Filho, não existe miséria maior que a que vivemos, portanto teremos dias e noites parecidos, mas creia, filho, jamais serão iguais porque aqui e agora eu lhe prometo que vamos deixar as ruas.

Minha mãe cumpriu sua promessa, saímos da cidade, não tínhamos nada, não levamos nada, tudo que não queríamos era o que tínhamos, um passado ruim e que deixamos para trás. Foram dois longos dias na cabine de um caminhão, não foi fácil conseguir uma carona, as pessoas se afastavam de nós, foi em um posto de gasolina que uma alma bondosa nos estendeu sua mão, mas primeiro tivemos que tomar um bom banho e trocar nossos trapos por roupas limpas, lembro destes momentos, o nome do caminhoneiro jamais me esquecerei, pois foi a pessoa mais importante de nossas vidas, seu nome era Rui. Mulher não me custa nada lhe dar uma carona ao contrário será ótimo ter com quem conversar mais só lhe dou carona só levo você e teu filho se ambos tomarem um bom banho, me desculpe a franqueza senhora mais vocês fedem.
Não temos roupas limpas, não temos nada, só a necessidade de partir e muita fome.
Lembro das palavras dele para minha mãe: roupas tenho algumas que, por esquecimento, minha mulher deixou no caminhão. Acho que até para o menino vamos encontrar alguma coisa que ele possa vestir, quanto à fome, depois do banho terão o que comer.


DEUS está sempre disposto a auxiliar aquele que quer se levantar, a mão de DEUS estava ali naquele estranho que se propôs a nos ajudar e, graças a ele, minha mãe teve seu primeiro trabalho e um teto, um pequeno quarto nos fundos de um desses restaurantes de beira de estrada onde ficamos por dois meses, minha mãe conseguira trabalho graças à pessoa do senhor Rui, ela trabalhava na cozinha, tínhamos o que comer e estávamos felizes, não estávamos mais nas ruas e nem passávamos mais fome, isto era o começo de um novo tempo e era bom, muito bom.
A vida reservava novos tempos para nós, era uma tarde de uma quinta-feira quando um caminhão encostou do outro lado, em frente ao restaurante. Era o caminhão do senhor Rui, que estava ali para nos levar. Havia conseguido um bom trabalho para minha mãe na mesma fábrica em que sua esposa trabalhava. Seguimos com ele rumo a novos tempos, mas esta é uma outra história.
Guardo com muito carinho este presente que minha mãe me deixou. Como já falei, foi o melhor presente que ganhei em toda a minha vida e sempre me recordo dele com todas as lembranças daquele tempo quando leio esta carta. Me orgulho da mãe que tive e que perdi na minha mocidade, quanto ao meu pai, nunca o tive.


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