A CARTA PRESENTE QUE MUDOU MINHA VIDA.
Quanto ódio em teu coração, meu
filho, jamais conseguirás ser feliz com tanto rancor lhe
atormentando a vida, o que passou, passou. Para que seguir regando
uma planta que não tem mais suas folhas, não terá mais flores e
nem terá mais frutos?
Filho, não vale a pena cultivar este
tipo de planta, uma planta proibida a todos que sonham um dia
encontrar um pouco de felicidade. O ódio é uma praga na vida
de quem o cultiva, não tranque teu coração com raízes desta
praga, não se torne como ele, teu pai que por uma má escolha fez da
vida dele uma estrada onde só deixou para trás sofrimentos e
ódio. Esqueça o que passamos, as dificuldades que enfrentamos
para chegarmos até aqui. Não temos muito mais, ontem não
tínhamos nada e juntos, mãe e filho, conseguimos mudar o rumo de
nossas vidas.
Filho, não vivemos mais nas ruas, temos nossa
casinha humilde. Sim, quando chove, tem goteiras, mas são tão
pequenas que mal nos incomodam. Tenho minha cama, não tenho um
colchão macio, um lençol colorido cheiroso, um cobertor capaz de me
aquecer para valer, mas já não sinto mais frio, tenho uma
cobertinha que me aquece e o mais importante, comprada com meu
dinheiro, o nosso dinheiro, não temos uma mesa farta, mas já não
passamos mais fome.
Filho, quanto nossa vida mudou,
vencemos a miséria e, com isto, passamos a uma vida de pobreza, mas
saímos da miséria e juntos podemos ir ainda mais longe, nos afastar
de vez de todo o nosso passado de tantos sofrimentos. Nossa
vida é uma história, meu filho, que começou na miséria onde tanto
eu como você fomos fragilizados pela força poderosa da falta de
tudo, principalmente esperanças e fé, falta de amor por nós.
Ontem
passou, deixemos que ele continue no passado, hoje você é um jovem
que vai completar amanhã seus quinze anos, foram sofridos, mas
vencidos, pois deixamos as ruas e tudo de ruim que elas representaram
para nós nestes longos anos de escuridão.
Hoje, filho, somos
alguém, temos um teto e seremos muito mais, pois nos amamos e
estamos juntos e juntos podemos quase tudo, podemos continuar a ser
felizes.
Guardo comigo esta carta, escrita por minha mãe e
deixada sobre minha cama ao lado do presente de aniversário quando
eu completava meus quinze anos.
Foram quinze anos cultivando
revoltas com as lembranças que tinha de meu pai e de sua covardia
para conosco.
Filho das ruas, nasci em um canto qualquer, sobrevivi porque DEUS
tinha uma missão para mim que era fortalecer minha mãe,
auxiliando-a a se salvar de um caminho que ela não merecia estar,
viver sob os domínios dele, sendo a miséria e todos os outros
vícios que a acompanham.
Não vou contar agora a história de
vida de minha mãe, quem sabe no futuro eu escreva um livro relatando
tudo. Agora conto um pouco da minha história, pois acordei com
vontade de falar, desabafar e assim sempre que meus olhos percorrem
esta folha de papel passo a passo, palavras por palavras, de todos os
presentes que já ganhei em minha vida, esta carta foi o melhor de
todos, pois, graças a ela, as palavras nela escritas mudaram o tom
de minha vida.
Tenho hoje vinte e nove anos, sou um cidadão
neste meu país, sou um vencedor, pois de onde vim só existem
perdedores. Sou um dos poucos que conseguiram mudar o rumo da
história de nossas vidas, minha e de minha mãe. Tenho guardadas
boas lembranças dela. Devo a ela o homem que hoje sou, pois ela
soube conduzir nosso destino. O amor que sempre teve por mim deu a
ela forças para mudar nossa história.
Como sofreu minha mãe,
me lembro dos poucos anos em que meu pai se fazia presente em nossas
vidas. Um ser sem sentimentos, tomado pelo lado negro, totalmente
perdido no vício, fazia com minha mãe todo tipo de maldades, mas a
pior delas era quando ele começava a agredir a mim, teu próprio
filho, tudo pela necessidade que o vício exigia de seu corpo.
Minha
mãe era obrigada a trazer das ruas bebida, fumo e até outros tipos
de drogas. Ele não se importava com a fome, pois ele só tinha
sede. Eu me lembro vagamente de ter meus quatro anos quando
minha mãe deu o primeiro passo para mudar nosso destino.
Lugar
miserável, vida miserável, destino miserável, amor doentio, não
quero isto, não quero nada disto mais em minha vida, me lembro dela
chorando e extravasando todo sentimento de revolta. Eu estava a seu
lado, ouvi cada palavra, cada frase e foi naquele exato momento que
nossa vida deu o primeiro passo para novos tempos.
Lembro que
minha mãe me tomou nos braços chorando. Filho, não existe miséria
maior que a que vivemos, portanto teremos dias e noites parecidos,
mas creia, filho, jamais serão iguais porque aqui e agora eu lhe
prometo que vamos deixar as ruas.
Minha mãe cumpriu sua
promessa, saímos da cidade, não tínhamos nada, não levamos nada,
tudo que não queríamos era o que tínhamos, um passado ruim e que
deixamos para trás. Foram dois longos dias na cabine de um
caminhão, não foi fácil conseguir uma carona, as pessoas se
afastavam de nós, foi em um posto de gasolina que uma alma bondosa
nos estendeu sua mão, mas primeiro tivemos que tomar um bom banho e
trocar nossos trapos por roupas limpas, lembro destes momentos, o
nome do caminhoneiro jamais me esquecerei, pois foi a pessoa mais
importante de nossas vidas, seu nome era Rui. Mulher não me
custa nada lhe dar uma carona ao contrário será ótimo ter com quem
conversar mais só lhe dou carona só levo você e teu filho se ambos
tomarem um bom banho, me desculpe a franqueza senhora mais vocês
fedem.
Não temos roupas limpas, não temos nada, só a
necessidade de partir e muita fome.
Lembro das palavras dele
para minha mãe: roupas tenho algumas que, por esquecimento, minha
mulher deixou no caminhão. Acho que até para o menino vamos
encontrar alguma coisa que ele possa vestir, quanto à fome, depois
do banho terão o que comer.
DEUS está sempre disposto
a auxiliar aquele que quer se levantar, a mão de DEUS estava ali
naquele estranho que se propôs a nos ajudar e, graças a ele, minha
mãe teve seu primeiro trabalho e um teto, um pequeno quarto nos
fundos de um desses restaurantes de beira de estrada onde ficamos por
dois meses, minha mãe conseguira trabalho graças à pessoa do
senhor Rui, ela trabalhava na cozinha, tínhamos o que comer e
estávamos felizes, não estávamos mais nas ruas e nem passávamos
mais fome, isto era o começo de um novo tempo e era bom, muito
bom.
A vida reservava novos tempos para nós, era uma tarde de
uma quinta-feira quando um caminhão encostou do outro lado, em
frente ao restaurante. Era o caminhão do senhor Rui, que estava
ali para nos levar. Havia conseguido um bom trabalho para minha mãe
na mesma fábrica em que sua esposa trabalhava. Seguimos com ele rumo
a novos tempos, mas esta é uma outra história.
Guardo com
muito carinho este presente que minha mãe me deixou. Como já falei,
foi o melhor presente que ganhei em toda a minha vida e sempre me
recordo dele com todas as lembranças daquele tempo quando leio esta
carta. Me orgulho da mãe que tive e que perdi na minha mocidade,
quanto ao meu pai, nunca o tive.
Nenhum comentário:
Postar um comentário