segunda-feira, 8 de agosto de 2011

LOBISOMEM

O Lubizome.

Um grande barulho feito do lado de fora da casa, fez com que Dorival se preocupasse com sua criação de patos e galinhas. Os bichos estavam inquietos, lembrou-se de que um de seus amigos teve o sítio atacado e alguns de seus animais mortos e devorados por tal bicho que ele, o amigo, acreditava ser um lobo, na verdade um lobisomem.
Lobisomem ou lobo não iriam devorar seus animais. Deu um pulo da cama, olhou para o relógio na mesinha da cama, onde marcava duas horas da madrugada, os bichos continuavam agitados. Maldito bicho, com que direito atrapalha meu sono, com que direito quer se alimentar do que é meu, sentira em seu corpo a ira de Dorival.
Dorival era um dos homens que não temiam nada, um típico caipira que só acreditava naquilo que seus olhos enxergassem, enfiou os pés na velha botina de trabalho que sempre deixava nos pés da cama. Não tinha tempo para colocar sua calça, saiu como dormia, de ceroulas, pegou a velha cartucheira e saiu para o quintal.
----- Era uma noite de lua cheia que facilitava sua visão, o galinheiro ficava a uns trinta metros da casa, com passos ligeiros se aproximou, os bichos continuavam agitados.

------ Droga, por que não peguei um lampião? Como vou enxergar alguma coisa nesta escuridão? Estas árvores tiram toda a claridade da luz da lua, e agora o que faço? Vou ter que voltar para pegar um lampião, mas antes vou até a cerca e faço um pouco de barulho, quem sabe assim eu consiga espantar tal bicho.
Com o cabo da cartucheira, bateu várias vezes nos bambus da cerca e resmungou algumas palavras sem sentido. Em seguida, caminhou de volta para casa, precisava de um lampião.
Dorival tinha fama de corajoso, nada lhe metia medo e, por esta razão, ganhou muitas apostas quando era desafiado na sua coragem. E com esta mesma coragem, Dorival caminhava de volta quando ouviu um quebrar de galhos secos, ficou atento e diminuiu sua passada. Outra vez ouviu o barulho de galhos quebrando, Dorival parou, cartucheira engatilhada aguardava o ataque de tal bicho.
Por uns três a quatro minutos permaneceu parado e nada, deu mais uns passos e ouviu de novo o quebrar de galhos, esbravejou, vamos apareça, seja o que for apareça, não pense que vou correr, pois não vou, estas terras são minhas e tudo sobre elas me pertence e ninguém ou nada vai tirar o que me pertence.
Caminhou mais um pouco e, de repente, algo foi atirado de dentro do mato em sua direção e caiu bem a seus pés, era uma cabeça de cabrito. Dorival olhou para a direção de onde ele supôs que tenha atirado o pedaço do animal e atirou, o estrondo do tiro ecoou pelo silêncio da noite como um estrondo de um dique se rompendo. Maldito seja você, o que for, não vai me fazer correr, juro que não, disse Dorival, que deu mais dois passos quando escutou bem ao seu lado o uivo forte de um lobo. Seu instinto de sobrevivência foi mais forte que sua coragem, deixou escapar de sua mão a cartucheira e se pôs a correr em direção à casa.

Pela primeira vez se sentiu apavorado e com medo, pela primeira vez em sua vida algo havia lhe metido medo.

Escondidos no meio do mato Jacinto disse para Tiago, não ti falei que conseguia fazer Dorival correr, certo mais o que o fez correr foi a cabeça do cabrito que lhe arrumei. ---- Na verdade, foi toda a encenação que fizemos, mas ainda não foi o suficiente para você ganhar a aposta. Ele vai ter que dizer que foi atacado por um lobisomem, certo? Mas para que isto aconteça, vamos seguir com o plano, vamos assustá-lo em casa, ele já não tem mais a cartucheira, portanto não corremos risco de levar um tiro. Você tem certeza de que ele não tem outra arma em casa? Certeza, então vamos.

Jacinto e Tiago, por conta de uma aposta entre eles, armarão para cima do amigo. Trouxe a tal madeira com os pregos com as pontas afiadas, sim, ótimo será nosso toque final.
Jacinto e Tiago eram vizinhos e amigos de Dorival. Fizeram uma aposta com outros amigos de que Dorival diria na frente de todos que foi atacado por um lobisomem e que chegou a correr do tal bicho para não ser pego por ele. Se refazia do susto e se revoltou contra o medo que lhe fizera correr. Que droga, lobisomens não existem, deve ser um lobo que desceu da mata atrás de comida, mas tenho que considerar que lobos não arremessariam uma cabeça de cabrito contra ele.
Dorival tentava achar uma resposta para o que lhe sucedera quando ouviu novamente o uivo do lobo.  Droga, este bicho veio atrás de mim, droga, deixei minha espingarda lá no caminho e agora?
Sentir medo era algo terrível para Dorival, ter que admitir esse medo era pior. Ouviu um barulho na porta dos fundos da casa, meio atordoado com o que estava sentindo, demorou um pouco para se lembrar do velho facão que usava para cortar canas e podar pequenos galhos. Precisava tomar posse desse facão. O barulho era algo estranho, pois lobos não atacam portas. Em sua cabeça, mais forte ficava o pensamento de que era de fato um lobisomem o animal que estava do lado de fora da casa, forçando sua porta querendo entrar.
Do lado de fora da casa, Jacinto e Tiago se seguravam no riso, imaginando o desespero do amigo. Jacinto pegou da mão do amigo a tal madeira com os tais pregos afiados que o amigo fizera, novamente saiu do meio do mato e caminhou em direção à porta da casa. Antes, ligou novamente o gravador e fez com que novamente se ouvisse o uivar do lobo, deu um pequeno espaço de tempo e, com a tal ferramenta na mão, caminhou em direção à porta da casa do amigo.

Na casa, Dorival procurava por tal facão, droga esta minha mania de não ter um lugar certo para guardar minhas ferramentas, onde coloquei esta droga de facão.
Do lado de fora, Jacinto estava pronto para dar o toque final, ferramenta em punho, pronta para riscar a porta. A porta dos fundos não tinha fechadura, era trancada com uma peça de madeira um pouco mais comprida que a largura da porta, que era encaixada em duas outras madeiras presas uma de cada lado do portal. Quando trancada, deixava uma folga entre a tranca e a porta. Era só tocar na porta para se ouvir um barulho. Jacinto sabia deste detalhe e o usou para causar um efeito maior no que pretendia fazer, tocou na porta por duas vezes e em seguida usou a tal ferramenta por duas vezes, deixando profundas marcas na velha porta de madeira da cozinha do amigo. Dentro da casa, Dorival havia acabado de encontrar o tal facão quando a porta se mexeu uma, duas vezes e em seguida ouviu o arranhar de unhas sobre ela, uma, duas vezes e se fez silêncio.
Durante alguns minutos, ele permaneceu empunhando seu velho facão, esperando um novo ataque do bicho à sua porta. Temia que sua velha porta se partisse com o peso do animal, teria que estar preparado para se defender do possível lobisomem.
Os minutos foram se passando, o silêncio era total até que voltou a ouvir o uivado do lobo novamente, só que desta vez bem distante da casa. Não conseguiria dormir depois do que passou, do susto pelo qual passou, pegou uma garrafa de pinga que tinha debaixo da pia, pôs quatro dedos da bebida em um copo e tomou de um só gole.
Pensando em tudo, as palavras foram saindo de sua boca em tom alto. Nunca acreditei nestas histórias de lobisomens, para mim não passavam de histórias, mas o que vivi esta noite me leva a crer que lobisomens existem.
Já bem afastados da casa, Jacinto e Tiago fizeram uma nova aposta. Tiago apostou que, depois de tudo que o amigo passou, ficou o resto da noite acordado. Então vamos recapitular, apostamos que Dorival confessaria que foi atacado por um lobisomem, certo? Sim, foi esta a aposta que fizemos com a turma, se ele não confessar que foi atacado por um lobisomem, perdemos a aposta sim, e apostamos que ele permaneceria acordado, certo, certo, mas o que vamos apostar, se você perder me paga uma rodada de cinco cervejas se eu perder lhe pago cinco, certo, está feito.

O dia clareou quando Dorival criou coragem e abriu sua porta, nela encontrou duas marcas distintas que pareciam marcas de unhas. Caminhou em direção ao galinheiro onde deixara cair sua cartucheira, queria ver a tal cabeça se era mesmo de cabrito, mas só encontrou sua velha espingarda e onde estava a cabeça do animal tinham marcas de unhas como as da sua porta.
Foi até o galinheiro, tudo estava normal, contou suas galinhas e os patos e suas galinhas de angola que eram dez, todos os seus bichos estavam vivos, respirou aliviado olhou para o céu e agradeceu a Deus.
Jacinto comentou com Tiago: foi ótima sua ideia de deixar as marcas de unhas no local da cabeça. Jacinto, você sabe que se Dorival souber que todo o terror pelo qual passou nesta noite foi arrumação nossa, além de perdermos o amigo, ele virá com tudo para cima de nós. Esta história é só nossa e morre após as palavras de Dorival, ninguém pode saber que fomos nós que planejamos isto tudo.
Dorival estava certo de que havia sido atacado por um lobisomem, não conseguira encontrar uma outra explicação quando o amigo Jacinto lhe contara sobre o ataque a seus animais e falou sobre lobisomens. Ele gozou do amigo, foi preciso viver todos aqueles momentos para constatar que o amigo tinha razão.
Todos os domingos, a turma se encontrava para uma partida de sinuca e algumas rodadas de cerveja. Jacinto sempre era o primeiro a chegar, seu sítio era o mais próximo da cidade, depois do sítio dele vinha o de Dorival e em seguida o do amigo Tiago. A que lê domingo, Dorival foi o último a chegar, sua indecisão de contar ou não para os amigos o que lhe havia sucedido na noite de sexta-feira lhe tomara um bom tempo, mas por fim resolvera revelar para os amigos toda sua terrível experiência e confessar que fora atacado naquela noite por um lobisomem.
Os amigos Jacinto e Tiago aguardavam ansiosos pela chegada do amigo, todos estranharam a demora de Jacinto que sempre foi um dos primeiros a chegar, gostava de iniciar o jogo, ganhara este direito por um ano após ganhar uma aposta dos amigos.  por fim sua camionete encostou na porta do bar e ele com um olhar serio, não se sentia muito à-vontade para confessar para os amigos que pela primeira vês em sua vida sentiu medo e correu por razão deste medo, mais não era homem de mentir e assim que entrou logo anunciou ( fui atacado esta noite por um lobisomem e corri de medo e não me perguntem mais nada )  se fez silencio ninguém se atreveu a fazer uma pergunta, todos conheciam o gênio agressivo do amigo , um pouco afastados do grupo Jacinto e Tiago ergueram os copos discretamente trocaram um olhar de vencedores e escondido do amigo trocaram um discreto sorriso, (-conseguimos-)   Jorge Soares










quarta-feira, 20 de abril de 2011

Reencontrando o Amor

Após muitos anos de ausência, estou de volta à minha terra. Quantas saudades vivi estes vinte poucos anos longe de minhas raízes, ainda me recordo do momento em que deixei tudo para trás, pois não suportei saber que a mulher que amava se casaria com outro. Foi uma loucura o que fiz, na época eu tinha minha vida profissional,era empresário, trabalhava como cozinheiro no meu próprio restaurante, não fiz faculdade mais tinha o dom para a casinha e um velho caderno de receitas de minha avo que fui Adapitando aos novos tipos de temperos, meus pratos faziam sucesso meu restaurante vivia com suas mesas ocupadas, deixei tudo e hoje ao voltar me deparei com tentas mudanças o restaurante que na época eu havia vendido, já não existia a cidade estava totalmente mudada, diferente alheia a historia de meu passado, todas as presenças que fizeram parte de meu passado deixaram de existir ou quase todas, sobraram algumas casas muito poucas,pois o progresso tomou conta de quase tudo.
Poucas casas resistiram ao avanço do progresso, a casa de meus pais foi uma dessas casas que resistiram aos tempos de modernidade.

Minha mãe e meu pai eu já havia perdido e nem tive como vê-los pela última vez, estava muito distante, mas sofri muito com a notícia da morte deles. Minha mãe foi a primeira que deixou este mundo, depois foi a vez de meu pai. Guardo deles a lembrança da imagem da última passagem de ano que passamos todos juntos e uma foto dos dois, que foi tirada no dia do aniversário de minha mãe. Saudades, quantas saudades dos parentes que ainda viviam na cidade.


Eu estava de volta de onde nunca devia ter saído, deveria ter enfrentado as desventuras que tive no amor. Deixei de curtir muitos anos da vida dos meus pais e de todos os outros de minha família por me acovardar em não encarar a vida de frente. Se tivesse ficado, hoje talvez estivesse vivendo com Renata, pois seu casamento durou somente cinco anos. Seu marido a deixou por um outro amor e ela, desgostosa, se foi da cidade. Nestes vinte poucos anos vivendo fora do Brasil, consegui guardar um bom dinheiro e ainda tinha o velho caderno de receitas de minha avó. Meu pensamento era montar um restaurante como antes o tinha feito, muita saudade do meu tempo de cozinheiro. Há muito não lidava na cozinha, a não ser para cozinhar meus próprios alimentos, até este prazer tirei de mim quando tomei a decisão de partir.

Bobagem pura, bobagem. Levei anos para esquecer e tudo que não passei aqui passei lá, a única diferença é que ela não estava por perto. Hoje estou bem, de volta às minhas raízes, sinto que posso ter um pouco de felicidade e isso é bom.

A vida, o que ela faz com nossas vidas, nos induz a viver histórias, reviver sentimentos, viver momentos, retornar na luta por nossos sonhos.

Eu estava pronto e feliz por estar novamente em casa.

Não perdi meu tempo, não podia, já o havia perdido antes, dois dias de minha chegada e já percorria as ruas à procura de um bom espaço para o meu restaurante, era uma outra cidade, ruas e casas, praças, tudo estava diferente, a cidade estava bem maior, muito pouco vestígio ficou de quando eu era criança e corria pelas ruas soltando pipas, salvo algumas casas que resistiram à força do progresso, a de meus pais era uma dessas casas.
O comércio era atuante, pude perceber nas quantidades de lojas, bares, bancos, a cidade havia deixado de ser uma cidadezinha para ser uma cidade que dava condições a seu povo de ter uma vida com prosperidade.

Após percorrer toda a parte central onde batia o coração da cidade, só havia um ponto que estava à venda. Me informando a respeito, constatei que ali tinha uma loja de tecidos antiga, cujos donos haviam falecido. Os filhos herdeiros não moravam na cidade, eram pessoas cultas, um era médico, o outro dentista, uma filha advogada, todos tinham suas vidas em outras cidades, fecharam o comércio dos pais e o puseram à venda.


As chaves estariam com um amigo da família, eu não conhecia estas pessoas, não eram gente de meu tempo, deveriam ser famílias que vieram para a cidade quando ela começou a se desenvolver, Colhendo informações, cheguei à pessoa encarregada de mostrar o local e juntos fomos ver o espaço. O nome do senhor encarregado de mostrar aos interessados o local era Armando. No trajeto até a loja, fui sondando o senhor Armando a respeito do preço do imóvel. Ele era muito reservado e pouco me informou. A única informação positiva era que eu seria o primeiro interessado e que eles tinham pressa de se livrarem do imóvel.
O espaço era ótimo, claro, precisava passar por uma boa reforma. A primeira seria desocupar todo o local, tirar todas as prateleiras e balcões do antigo proprietário e trocar piso, revestir paredes, fazer uma boa cozinha. Muita coisa teria que ser feita, mas o espaço era ótimo e a localização excelente, só faltava negociar com os proprietários o preço.

Pois bem, gostei do espaço, é perfeito para o que quero, só falta saber quanto vai me custar. O senhor não sabe mesmo do valor, não, meu filho, fiquei com as chaves pela amizade que tinha com os pais deles, pois eles para mim não passam de estranhos, foram embora da cidade muito pequenos e poucas vezes estiveram aqui e até mesmo na doença dos pais vieram poucas vezes visitá-los, contrataram algumas pessoas para cuidar dos velhos e só. Vejo que o senhor não tem muita simpatia por eles. Não, não tenho mesmo o que fizeram com os pais, eu acompanhei o sofrimento de ambos. Éramos uma família de amigos, por vezes dona Antonieta chorou ao lembrar dos filhos, sentia falta deles que nem mesmo nas datas de aniversário davam o ar da presença. Ela foi a primeira a falecer, três anos depois meu amigo Artur deixou este mundo. Já se passaram dois anos da morte dele, dois anos que tenho comigo estas chaves. Quase todo final de semana, um deles me liga para saber se alguém se interessou pelo imóvel. Estão ansiosos para se livrarem destas lembranças, portanto, acho que você terá uma ótima chance de fazer um bom negócio.

Voltamos à casa do senhor Armando, onde ele me deu o número de contato com os proprietários do imóvel, mas antes ligou informando do meu interesse. Agradeci a ele pela gentileza com que me tratou e deixei a casa. Eu estava morando na casa que era de meus pais e que minha irmã morava, fui abrigado no mesmo quarto em que usava quando criança, senti a alegria dos meus ao retornar após vinte poucos anos longe de todos. Em casa éramos cinco pessoas contando comigo, minha irmã Roberta, meu cunhado Ari e um casal de sobrinhos, Flávio e Priscila. Minha irmã estava empolgada com a ideia do restaurante e, quando cheguei em casa com a notícia de que já havia me interessado por um local para montar o restaurante, ela vibrou.
Naquela mesma tarde, contatei um dos proprietários, cujo nome, Doutor Emanuel, foi assim que me atendeu. Doutor Emanuel, me apresentei como sendo a pessoa que o senhor Armando havia falado, disse a ele meu nome, André. Ele foi direto, olhe o preço do imóvel, e de oitenta mil, tudo a loja e a casa, lhe entrego tudo por este preço e com tudo que está dentro. O preço não estava fora dos meus cálculos, considerando que pensei em cinquenta na loja para oitenta em tudo, estava ótimo, não cheguei a conhecer o interior da casa, pois meu interesse era só na loja, porém vi que faria um bom negócio e fechei nos oitenta.
Eu estava com pressa, procurei um advogado, mandei que preparasse os papéis e fui ao encontro do Doutor Emanuel e finalizamos o negócio. Não podia perder tempo, contratei um bom pedreiro que, sendo ele meu cunhado, partimos para as reformas, esquecendo da parte de cima que ficaria para uma outra etapa.


Foram quatro meses de obra e, durante este período, mesas e cadeiras foram providenciadas. Eu queria iguais às que tive no outro restaurante, até mesmo os balcões. Enfim, tudo estava pronto. A cara do restaurante era a mesma do outro que tive, mesas, cadeiras, balcões, a decoração em si era quase idêntica com algumas melhoras como bons ventiladores, um bom som ambiente com um pequeno palco e uma mini pista de dança, enfim, a casa estava e não estava parecida com a outra, principalmente a fachada. Foi um dia agitadíssimo. Os preparativos para a inauguração estavam nos seus últimos detalhes, tudo tinha que estar perfeito, os funcionários contratados, dois garçons e uma terceira pessoa que era uma garota para atender no bar, todos estavam uniformizados com roupas discretas nas cores verde e branco, os convites foram enviados às autoridades e a um certo número de pessoas da sociedade local e outros para pessoas simples, moradores de famílias mais antigas da cidade.

A noite estava linda, com o céu todo estrelado, as pessoas chegando, terei casa cheia. Na cozinha, eu me sentia como há vinte poucos anos, quando cozinhava para a inauguração de meu restaurante, um sonho realizado com muita luta e muitas dívidas, muito diferente dos momentos atuais, mas as emoções se comparavam dentro de um contexto totalmente diferente.
Foi um sucesso, a casa lotou, e recebi inúmeros elogios por tudo, mas principalmente pela comida. Teve pessoas que repetiram os pratos, e tudo graças ao velho caderno de receitas de minha avó, que era a base da maioria dos meus pratos e, quando os preparava, pensava nela e sempre a agradecia por me ajudar tanto, tanto. Eu estava me sentindo feliz novamente, com meu coração em paz, mas me sentindo um pouco solitário. Passei todos esses anos fugindo de relacionamentos amorosos, as poucas mulheres que tive eram as que faziam de seus corpos sua ferramenta de trabalho, eu só saía com garotas de programa, fugindo do risco de me envolver.
Minha vida precisava de um amor, eu precisava me envolver com alguém, dividir, compartilhar meus momentos, na verdade eu ainda pensava em Renata, ainda conservava lá no fundo de meu coração uma fagulha do sentimento forte que no passado senti por ela.

Os meses foram passando, um ano, sim, o restaurante completaria um ano de pleno sucesso. Meus investimentos estavam quase recuperados, mas meu coração continuava inquieto, angustiado. O destino, creio na existência dele e que muito do que vivemos faz parte de nossa história e a minha teria novidades naquela noite, não era pressentimento, nada pressentir, o dia foi normal como todos os outros, minha felicidade com o trabalho era a mesma, mas à noite, após todos partirem, clientes e funcionários, recebi uma inesperada visita.

As portas estavam todas arriadas, menos uma que permanecia abaixada até o meio, era por onde eu sairia após fechar o caixa e conferir se tudo estava em ordem. Eu estava sentado em um dos bancos que contornavam o balcão do bar, sobre o balcão, uma garrafa de cerveja e um copo. Fazia isto todas as noites, após conferir tudo, na solidão de minhas madrugadas, tomava minha cerveja e me dava a este prazer. Distraído, perdido em pensamentos, não percebi que não estava sozinho. Eu pensava nela quando ouvi sua voz. Sacudi a cabeça para afastar o pensamento, mas tornei a ouvir sua voz, sacudi novamente a cabeça, será que meu pensamento no desejo de revelá-lo era tão forte que estava imaginando ouvir sua voz, mas a voz se repetiu com mais palavras.
Posso me sentar ao teu lado? Virei-me em direção à porta e ali estava ela, a dona da voz, uma mulher madura bem vestida com um rosto marcado pelo tempo, mas continuava linda, um sorriso triste nos lábios, Renata caminhava em minha direção.

Fiquei por minutos parado, olhando para ela sem palavras, paralisado pela surpresa de vê-la ali bem à minha frente, linda e querendo falar comigo. André, desculpe minha invasão, mas depois que fiquei sabendo de tua volta, lutei muito contra o desejo de lhe procurar, mas o tempo acabou por me envolver de tamanha maneira que este desejo se fortaleceu com tamanha força que não resisti e aqui estou, por favor, não peça para que eu me vá, me conceda uns minutos, tenho tanto a lhe dizer e tanto gostaria de saber de você, como me arrependi da escolha que fiz, tinha tudo para ser feliz a teu lado e tive a infelicidade de tão mau escolha.
Ali estava bem à minha frente a mulher de minha vida, declarando que jogou fora sua felicidade quando se afastou de mim para se casar com outro, era tudo que eu queria ouvir de sua boca, o arrependimento. Por alguns segundos, fiquei sem ação, olhando para ela. A surpresa foi tamanha que não tive palavras para responder a ela de imediato. Foi preciso respirar fundo, sacudir a cabeça, fechar os olhos por algumas vezes para ter a certeza de que não estava sonhando. Renata, perdoe minha falta de educação, claro que pode se sentar e que eu não estava acreditando em meus olhos se era você mesma, quantos anos você continua bela,




são teus olhos, este tempo que passei pela vida, muito me marcaram. Muitas desventuras, muita luta me envelheceram bastante, pode até ser mais contínuas uma bela mulher. Por favor, sente-se, que tomar um copo, como você pode ver, continuo tomando da cerveja que você me ensinou a beber. Lembra quando começamos a sair juntos? No início, pedíamos duas marcas de cerveja, pois você só tomava desta marca e eu da outra. Depois que firmamos nosso namoro, passei a te acompanhar na tua e até hoje continuo bebendo desta. E a melhor, se você diz, aceito sim um copo. Fiquei feliz quando soube que você estava de volta, foram muitos anos, sim, Renata, foram muitos anos e te digo, difíceis, quase insuportáveis, mas sobrevivi e estou de volta, montei meu restaurante novamente e estou seguindo com minha vida, se quer saber se sou feliz, se me sinto feliz, não, eu não estou feliz, me falta um amor,, me sinto muito solitário, muito só.

E lhe digo, estava aqui tomando esta cerveja e pensando em ti, todos estes anos se passaram e eu não consegui tirar você de meu coração. Quando aqui cheguei, de imediato fiquei sabendo que você estava só e confesso, me senti feliz com tua separação e não me envergonho nem um pouco, pois pensei: meu amor está livre, ainda posso ser feliz. Apesar de ter vivido tantos anos longe de tua presença, nunca consegui lhe esquecer, consegui sim aquietar meu coração, mas em minha mente sempre tive esperanças de que um dia teria novamente a oportunidade de viver contigo minha história de amor. Eu lhe confesso, André, que se arrependimento matasse, eu seria uma pessoa morta. Como pude me enganar tanto, tanto, como meu coração pode fazer uma escolha tão errada, mas o fez. Tudo foi tão rápido, nosso namoro estava no começo, partimos de uma amizade dos tempos de infância e sustentamos esta amizade por muitos anos, sempre evitando assumir um compromisso. Sentíamos algo mais forte um pelo outro, mas tínhamos receio de assumir um sentimento novo que poderia pôr em risco nossa velha amizade. 

 O tempo foi passando e, com ele, o sentimento foi ganhando força ao ponto de decidirmos. Começamos nosso namoro, mas eu lhe confesso agora, minha decisão teve uma influência toda tua. Você me convenceu, não que eu não lhe amasse e que tínhamos uma amizade tão bonita, e o medo de pôr em risco esta amizade estava me impedindo de viver este amor. 

Por fim, começamos nosso namoro três meses depois. Eis que surge entre a presença de Rodrigo, simpático e cortejador, que começou a me cercar de todos os lados com sutileza, se mostrando muito apaixonado. Eu estava vivendo um amor feliz, mas cheio de dúvidas quanto ao risco de pôr tudo a perder, pois no amor sempre há cobranças e eu, sendo muito ciumenta, me preocupava com nosso relacionamento, com minhas possíveis cobranças.



Foi aí que comecei a ver em Rodrigo um caminho para mudar os rumos de nossa história. Ele não me dava folga, quando não aparecia me ligava três, quatro, cinco vezes ao dia, só se afastava quando você estava presente, sua insistência foi tanta que aceitei ficar com ele, foi quando terminei com você. Juro que nunca o traí com ninguém, quanto ao cortejo que sofria por parte dele, eu não levava a sério, não dava importância, por isso nunca falei dele com você, primeiro para evitar confusão desnecessária, segundo, ele nunca me faltou com o devido respeito. Mas, aos poucos, ele foi tocando meu coração e, quando dei por mim, estava gostando dele. O resto você já sabe, me casei e você se foi e tudo não saiu como eu pensei. Poucos meses depois, me dei conta da burrada que havia feito, aí já era tarde, você partira sem deixar rastros, levei meu casamento por mais uns quatro meses, depois veio a separação, o fim de uma vida a dois. 

Foram anos e mais anos enfrentando minha solidão, depois que meu casamento terminou não tive mais ninguém, me tranquei com minha dor e com todo o remorso pela burrada que fiz, pelo tamanho do sofrimento que havia lhe causado.
Fiquei feliz quando uma de minhas primas, que mora na cidade e era a única que sabia de meu paradeiro, me ligou dizendo que você havia voltado e, o melhor, procurou saber de mim. Uma pequena esperança começou a ganhar vida dentro de meu coração, você ainda gostava de mim, eu tinha uma chance de ter o teu perdão. Custei a adquirir coragem para lhe procurar, por três vezes estive em frente a este bar e não tive a coragem de entrar, mas hoje não me acovardei e aqui estou para lhe pedir perdão por todo o mal que lhe causei quando troquei minha felicidade por momentos de ilusão. ------ Sabe, Renata, foram anos difíceis, principalmente os primeiros, depois tudo foi suavizando, se tornando mais suportável até que meu coração se aquietou de vez, mas nunca deixei de gostar de você. Quando aqui cheguei, quis logo saber de você e, quando fiquei sabendo que estavas sozinha, me enchi de alegria, pois tinha uma possibilidade de retornar a viver com você nossa história de amor interrompida há mais de vinte anos atrás.





Estou feliz por você estar aqui, pode não acreditar, mas estava pensando em você, e sempre assim todas as noites quando todos se vão e eu fico para fechar o caixa, abro uma cerveja, encho um copo e meu primeiro gole sempre foi para ti.  Nada tenho para lhe perdoar, eu sofri, você sofreu, ambos sofremos e ponto final, eu gostaria de recomeçar nossa história de amor e, se você estiver a fim, não diga nada, só me dê sua boca para um longo beijo. Um beijo é muito pouco. Tenho um fogo queimando as entranhas de meu corpo há muitos anos e nunca quis apagá-lo. Procurei mantê-lo baixo, quase invisível, na esperança de que um dia você voltasse e me tomasse em seus braços. Este é o momento, quero ser tua, lhe dando o beijo pedido, mas com o meu corpo como sinal pela imensa dívida que tenho com você.
Foi uma noite inesquecível, o começo para muitas outras, pois três meses após nosso reencontro, nos casamos. 

Viajamos para uma lua de mel que durou dois meses, por sinal merecido após passar por tantos anos de sofrimentos. Enfim, reencontramos nossa felicidade na união de nosso amor que suportou todos os flagelos e só se fortaleceu na pureza do sentimento que sempre esteve entre nós dois, e o amor.







sábado, 15 de janeiro de 2011

A Figueira

A Figueira

Estava eu sentado à sombra de uma grande figueira em um lugar isolado, distante de tudo e todos. Não era uma mata, mas um descampado rodeado por pequenas árvores que ali brotaram alguns anos após passar por ali um incêndio que consumiu uma boa parte de tudo.
A Figueira sofreu menos por estar em um descampado, o fogo pouco estrago fez em sua beleza. Majestosa, imponente, ela se destacava isolada, tendo em sua volta somente vegetações rasteiras e eu estava ali pronto para aproveitar do conforto que seus galhos proporcionavam, oferecendo um local refrescante com muita sombra, pois a árvore era imensa. Muitas histórias já foram contadas a respeito destas imponentes árvores, os mais antigos acreditavam que os espíritos do mal têm a figueira como seu talismã e que eles, os espíritos do mal, habitam seu tronco e repousam em seus galhos. Das histórias pouco sei, só sei que é confortante usufruir de sua sombra.

O sol estava escaldante, só um maluco como eu para encarar um passeio deste com um sol tão forte. Sempre gostei destes passeios, quando garoto gostava de invadir as pequenas matas como um explorador, um aventureiro. Minha aventura neste passeio era tirar fotos, gosto de fotografar paisagens, animais, a natureza nos oferece cenários magníficos para serem fotografados e eu estava ali usufruindo de tudo. A própria figueira já estava com sua imagem em minha câmera. À horas em que eu estava fotografando, as pernas já estavam cansadas, foi muita sorte ter encontrado uma sombra tão confortante como a que a imensa figueira proporcionava.
As histórias são histórias, o nome já diz, não iria deixar de aproveitar uma boa e confortante sombra por medo de histórias. Procurei um lugar próximo ao tronco da árvore para me sentar, um lugar que desse para me encostar e esticar as pernas. Respirei fundo daquele ar fresco que me rodeava, uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes, na quarta meus olhos já estavam fechados e a mente solta, livre.
Quem é este? Quem é este? Não sei, teu amigo, não, não, e teu não conheço, não conheço, um intruso. Então ele é um intruso em nossa casa, acho que sim, acho que sim. Escutem todos, quem deu permissão para um estranho usar de nossa sombra, usufruir da sombra de nossa casa? Eu não, eu também não, nem eu, tão pouco eu, eu também não, por um acaso houve um pedido da parte dele a alguns de vocês, não, não, não. Como uma criatura pode invadir a casa alheia assim? Ele é muito atrevido, não, ele é abusado, não, ele é um cretino, ele é um entrão e merece uma lição. O que vamos fazer? Vamos dar um susto nele, de que maneira? Vamos jogar pedras, eu não tenho pedras, vou jogar pedaços de galhos secos. Tudo bem, eu jogo primeiro, não, eu tive a ideia, vou jogar primeiro, quietos todos vocês querem acordar o cara, esqueceram de quem é esta casa, esta casa é minha, cheguei primeiro e tive que lutar por ela, portanto mando em minha casa, eu jogo a pedra. Mas você não tem a pedra, não, mas você tem o galho e vai me dar, eu não vou dar o meu galho, ele é só meu, calado a casa é minha, eu mando ou sai de minha casa. Toma o galho e vê se não erra, pois só tenho este e eu o conheço. Se eu jogar, não vou errar, quanto a você, não sei, ele não te conhece e nem você a ele. Pare de me azarar, eu vou jogar o galho, joga mais, não erra, não enche, se eu errar tenho outro galho. Eu não vou lhe dar meu galho. Gosta daqui? Sim, sim, gosto, então o galho é meu, mas você não conhece o galho e ele não te conhece e você pode errar.
Calem-se todos vocês que vou jogar o galho. Vê se não erra o galho, não te conhece e nem você conhece o galho e você pode errar. Tá bom, tá bom, o galho é teu, tampa ele você, mas vê se não erra o galho e teu você o conhece e ele lhe conhece, mas você pode errar. Mas eu não erro, e se errar, tá bom, tá bom, toma o galho e pode jogar. Eu não tive coragem de abrir meus olhos, mas, mesmo muito assustado, eu ouvia todo aquele diálogo e lutava contra o medo. Queria abrir meus olhos para enxergar os donos daquelas vozes. O diálogo continuou e eu, mesmo apavorado, continuei atento. Silêncio que vou jogar o galho. Uma voz bem distante disse vê se não erra. O que tinha o galho? Respondeu o galho: mora em minha casa, ele vai aonde eu quero. Senti algo cair sobre mim, mas o medo me manteve paralisado, com os ouvidos alerta. Você errou, não eu. Não errei o galho que é fraco, não teve a competência de ferir o alvo. Me dê o outro galho, não, o galho é meu, me dê o galho ou saia de minha casa, tá? Toma o galho, mas vê se não erra.



O diálogo era o mesmo, pareciam confusas, não demonstravam serem ruins, pareciam ser como crianças sem maldade, criaturas inocentes e muito atrapalhadas sem noção do que fazem. Quem tem mais alguma coisa que mora na minha casa? Tenho uma pena respondeu uma das vozes, imediatamente a voz de comando disse e minha. Quem tem mais, eu tenho um ninho, disse uma outra voz. Era possível identificar as vozes, pois eram todas diferentes uma da outra. E meu, me dê, me dê, vou jogar tudo junto, mas vê se não erra a pena, não te conhece, você não conhece a pena assim como não conhece o ninho, e você pode errar. Senti novamente algo cair sobre meu corpo, mas continuei quieto, imóvel. Está vendo, está vendo, você errou outra vez, quietos, e agora, e agora, deixa eu pensar, hum, hum, eu quero o meu galho, eu quero o meu galho, eu quero minha pena, eu quero minha pena, me devolve o meu ninho, você errou, o propósito não foi alcançado, queremos de volta o que é nosso. Tudo bem, se querem, vão pegar, você sabe que não podemos deixar a proteção da árvore, se saímos, deixamos de existir. Então vocês querem que eu deixe de existir, querem ser os donos de minha casa, vou jogá-los ao vento para que se tornem poeira.
Não, não nos destrua, esqueçamos tudo, não queremos mais nossas coisas, queremos continuar vivos. Você precisa da nossa companhia, a solidão enlouqueceria você, você não vai querer se tornar um louco, vai. Tudo bem, tudo bem, esqueçamos agora, quietos, deixe eu pensar. Enquanto o líder pensava, eu ouvia o resmungar dos outros. Eles não se conformavam em ter ficado sem suas coisas. Embora ameaçados pelo líder e tendo concordado com o acontecido, eles continuavam resmungando, só que não incomodaram mais. Achei estranho porque o líder não se importava mais com os resmungos, eles concordaram, mas não pararam de fazer o que estavam fazendo e parecia que o líder não ouvia o que os companheiros diziam em seus resmungos.


Que criaturas seriam estas? Minha mente trabalhava à procura da resposta, mas meus olhos não davam a ela a informação que precisava para desvendar tal mistério. Eles não podiam tocar ao chão, isto eu já sabia, se eles tocassem ao chão, se tornariam poeira. Outra coisa que percebi, a árvore é que os protegia, suas vidas sem ela não existiriam. Perguntas vieram à minha mente, como chegaram até ali, ouvi o líder dizer que a casa era dele, que ele havia lutado muito para conseguir ter sua casa, lutou com quem, contra quem se não podia deixar a árvore estranha. De repente, o líder falou: parem, parem, vocês não se cansam de ficarem discutindo algo que não tem solução? Vocês não são mais os donos das coisas, tudo agora pertence ao chão, assim como nós. Se fazem tanta questão de terem de volta aquelas porcarias, se elas têm mais valor para vocês que sua liberdade, peguem de volta o que querem, eu não, nem eu, tão pouco eu, então quietos pensei e acho que descobri um jeito de castigar o intruso. Qual, qual, qual, vamos pescar sua alma, pescar sua alma, pescar sua alma, pescar sua alma, sim, vamos pescar sua alma, mas como vamos fazer isto, como, como, como, prestem atenção, vou explicar a vocês, mas é perigoso, vocês terão que ter coragem. Tenho coragem, eu também tenho, eu sou o mais corajoso.
Eu sentia todo o meu corpo tremer, estava apavorado, meus olhos pareciam colados e quase não respirava. Quem são estas criaturas, o que são e por que são tão egoístas, que mal tem alguém descansar na sombra de uma arvore, eles não são os donos da arvore não tem o direito sobre ela pensei. Diz, diz o que vamos fazer para pescar a alma do intruso. Prestem atenção não vou ficar repetindo e não me interrompam quando eu estiver falando, pois fale,fale,fale, será preciso dois de nos para cada tentativa, primeiro vai o mais corajoso junto com o primeiro que tem a coragem, o que vamos fazer. Só existe uma maneira de pescar a alma do intruso, quando ele respirar Sua alma sai do corpo para pegar ar, ai e a hora que vocês atacam. Mais por que temos que ser dois se a alma e somente uma, porque um presta a atenção na boca ele pode respirar por ela o outro presta atenção no nariz pode respirar por ele e quando vocês a pescarem será preciso os dois para dominar ela. Porque dois de nos para somente uma alma. Querem mesmo saber, eu quero, eu também quero, nos queremos respondeu uma voz que pouco falava e mais ouvia. Se querem eu falo, e que ele pode ter a alma pesada e pode nos levar ao chão. Não estou entendendo disse o que pouco falava,explique direito e fale dos riscos, pois o plano e teu a idéia e tua mais a vida e deles.



Pois bem, e preciso de dois: um para vigiar sua boca, o outro seu nariz, pois, como já disse, ele pode respirar tanto por um como por outro, e preciso de dois porque sua alma pode estar pesada, ela não é como nós que mantemos nosso peso. A alma humana varia de peso de uma para outra, mais por causa do pecado, mas o que é o pecado, fala diz queremos saber. Novamente, o que pouco falava tomou a palavra. Pecado e a falta de inocência são os desejos, as tentações que conduzem a praticar o mal, assim como o que vocês vão fazer com o estranho.
Eu podia pôr fim a tudo, era só abrir os olhos, me levantar e sair de debaixo da árvore, mas não conseguia me mover, meus olhos estavam travados de tanto medo, pareciam colados, por mais que me esforçasse não conseguia abri-los. Eu já estava apavorado após ouvir o que eles pretendiam fazer comigo. Me deixou completamente aterrorizado ao ponto de urinar em minha roupa, sim, o pavor era tanto que o medo me fez me molhar todo. Pescar minha alma quando eu respirar, minha alma deixar meu corpo à procura de ar, isto existe? Será que é assim que acontece ou ele sabe que estou acordado e está falando para me assustar? E se ele não souber e estiver falando com intenção de fazer, e se eles pescarem mesmo minha alma, o que acontecerá comigo? Estas perguntas cresciam dentro de minha mente, o que fazer? Pensei, pensei e só encontrei um caminho: rezar, rezar, rezar. Só mesmo com a ajuda divina eu conseguiria me livrar do domínio do medo e abrir meus olhos, o diálogo continuou.
Escutem, prestem bastante atenção, você que tem coragem e você, o mais corajoso, não dê ouvidos ao outro, ele é medroso e quer que vocês tenham receio assim como ele tem. O que vamos fazer não tem nada a ver com o pecado, só vamos dar um susto nele, só um susto. Eu não quero pecar, eu também não, e nem tão pouco eu, eu já falei que ninguém vai pecar, o que não podemos é deixar o desconhecido tomar nossa sombra sem nos ter pedido. Vamos dar um susto nele sim, vamos, vamos, eu também quero participar, disse o terceiro. Pois bem, escutem, você que tem a coragem com você, o mais corajoso, vão fazer o que falei, vão descer até ele e ficar um de cada lado, você que quer participar vai assoprar bem forte em sua boca, o nariz e onde sua alma vai sair, vocês dois prestem atenção no nariz quando a alma dele sair para respirar, vocês a agarram, a que Le que segurar primeiro irá precisar da ajuda do outro, mas não a deixe escapar. Não, não contem comigo, não sou moleque para brincar de assustar os outros, disse o que pouco fala. Você vai soprar na boca do intruso, não falou que quer participar, não quero mais. E não vai ter certeza, pois bem, todos têm que fazer alguma coisa, eu sou o dono da casa e sou eu quem dá as ordens. Você dá as ordens e o que você vai fazer? Achar graça e se esconder. Não seja arrogante, me tua liberdade e também o teu conforto de habitar o topo, perdeste o medo de altura, olha que posso colocá-lo cá em Baixo. Não faço, eu faço, pois bem.


Fez-se novamente silêncio, as vozes pararam, mas continuei lutando para me livrar de todo aquele tormento, sabia que era só sair de debaixo daquela árvore, mas meu corpo parecia colado ao tronco, era como se a árvore estivesse me abraçando, me mantendo preso a ela. De repente, me veio um pensamento: será que a árvore me mantém preso a ela justamente para incomodar seus ocupantes e forçá-los a deixá-la? Mas se assim for, eu estou perdido, pois pelo que ouvi da conversa deles, não deixaram a árvore nunca, pois se deixarem teriam que voltar para o lugar de onde vieram e isto eles não queriam, eles se sentem bem na proteção da árvore. Já sei o que fazer para ajudar, disse uma quarta voz, então diga, diga, diga, fale logo, pois bem.
As vozes novamente se fizeram ouvir em um diálogo quase sempre sem sentido, eles não citam nomes, se dirigem uns aos outros pelo que falam de si como mais corajoso, quem tem a coragem, ele é medroso, o do alto, dono da casa, e desta maneira que se comunicam entre si. Não tem nomes próprios, era como se não existissem uma sombra falante, espíritos falantes, não eram de natureza ruim, maldosos nas suas brincadeiras, o que estavam fazendo comigo era pura e simples brincadeira, egoístas por não aceitarem ninguém usando da sombra da árvore que consideram sua casa. Mesmo tão apavorado como estava, consegui pensar nas atitudes deles para comigo e deduzir que não eram criaturas más, mas sim atrapalhados e confusos, e que a conversa de pescar minha alma era pura brincadeira, só que eu não tinha a certeza e por isto nada mudou em relação ao medo que estava sentindo.


Vamos, diga como você vai participar, você que fala pouco, mas também fala muito e que mora no alto. Vou tomar o lugar de sua alma quando ela for agarrada, vou entrar em sua casa e assustá-lo por dentro. Muito boa esta minha ideia, disse o que liderava, respondeu o outro, mas a ideia é minha, mas sou o dono desta casa, somente eu tenho o direito a pensar e sem o pensamento não se tem ideias, portanto a ideia é minha.
Eu continuava lutando contra meu medo com toda minha força mental, queria e precisava me livrar daquela situação, mas tudo em vão, não conseguia abrir os olhos e nem tão pouco me mexer, ouvia tudo e nada podia fazer a meu favor. Eles estavam prestes a me atacar de uma maneira que iria me causar uma imensa dor, agarrar minha alma, entrar no meu corpo, isto deve doer muito, muito. Não pode ser verdade, eu só posso estar sonhando, só pode ser um sonho. A voz se fez ouvir novamente; escutem todos vocês, quero que me digam o que vamos fazer com o estranho todos nós juntos. Vamos dar um susto nele. De que maneira cada um fala o que vai fazer. Eu que tenho a coragem vou vigiar sua boca, eu que sou o mais corajoso vou vigiar seu nariz, eu que também tenho coragem vou soprar em sua casa e eu que pouco falo e falo muito e moro no alto vou invadir a casa de sua alma. Pois bem, todos sabem o que fazer, mas não se esqueçam, se tocarem ao chão, voltam de novo para a terra, portanto cuidado, muito cuidado, agora vão.
Meu Deus, estou perdido sem vossa ajuda, me salve. Eles vão pegar minha alma e entrar no meu corpo, vão roubar minha vida e eu não quero morrer aqui sozinho debaixo desta árvore, Deus não permita que eles consigam realizar suas tarefas, me diga o que fazer para que eu possa acordar e me livrar de tudo isto. Senti a presença deles a meu lado, não respiravam mais, eu sentia o cheiro de poeira que só podia ser o cheiro deles. Eles vão me atacar, o que fazer se eu respirar? Eles pescam minha alma, não posso respirar, tenho que segurar minha respiração até eles desistirem.


Escutem todos, quando eu falar já, ataquem, um, dois, três e já. Prendi minha respiração durante o tempo, durante o tempo que fiquei sem respirar, continuei ouvindo as vozes das criaturas. Cadê, cadê a alma dele que não sai? Uma outra voz indagou: será que ela nos viu? Será, será, o outro que falava pouco disse, ele dorme, mas seu espírito nunca dorme, e a sua proteção. E se ele nos atacar, perguntou o que tem coragem, e se o espírito dele nos atacar e nos atirar ao chão, aí estaremos perdidos, seremos pó novamente e eu não quero ser pó novamente, nem eu disse o outro, eu também não disse o terceiro.
Quietos, quietos, não tumultuem as coisas, você que mora no alto, não tire a coragem dos mais corajosos e nem tão pouco do que tem a coragem, não assusta o que pouco fala, escutem todos vocês, temos que castigar o intruso, hoje ele deita à sombra de nossa casa, amanhã ele volta e derruba nossa casa, vocês querem isto? Não, não queremos perder nossa casa, pois bem, então vamos fazer o que nos combinamos. Novamente se fez silêncio e eu ali sem respirar, não aguentaria por muito tempo aquela situação. O que somos capazes de fazer quando nos sentimos ameaçados, coisas que nos surpreendem, uma força que desconhecemos emerge da nossa natureza e nos fortalece, capazes de ultrapassar nossos limites em proteção à nossa vida. As vozes novamente pude ouvi-las, eles resmungavam entre si, consegui identificá-los pelo tom da voz que era muito diferente uns dos outros, ouvi a voz do que pouco falava. Escutem, escutem, não estou gostando nada disso, só nós e quem nos arriscamos, já pararam para pensar que podemos ser prisioneiros novamente se formos atirados ao chão e se o que comanda quiser ficar com a casa toda só para ele, o que faria? Faria justamente o que está fazendo, nos mandando para uma missão suicida onde podemos ser devolvidos ao vento. Eu não quero mais fazer isto, eu também não, nem eu tão pouco, o que faremos? Perguntou o mais corajoso. Nada, nada respondeu o que pouco fala, mas a casa é dele, disse o que tem coragem, mas ele está só e nós somos quatro, resmungou o que fala pouco, ele é o dono da casa, mas juntos temos a força e juntos podemos mandar na casa dele.
Eu não quero voltar a ser poeira, disse o que tem medo, então vamos agir, disse o que pouco fala. Eu estava no meu limite, me sufocava o não respirar, porém o medo deles pegarem minha alma e invadirem meu corpo me manteve além de minhas forças na difícil missão de não respirar, mas como tudo tem um limite, o meu limite foi alcançado e na ânsia da busca pelo ar me engasguei e neste exato momento meu corpo reagiu e de um salto me pus de pé. Assustado e perdido de pensamento, levei alguns segundos para perceber que tudo havia acabado, que eu estava de pé e havia acordado. Olhei para cima à procura dos donos das vozes que me atormentaram, me deixando apavorado e não enxerguei nada a não ser os galhos se movendo com o vento e suas folhas  acompanhando seus movimentos, olhei em minha volta à procura de algo que pudesse esclarecer se foi sonho ou realidade o que passei, o que vivi por alguns minutos e me deparei com um ninho caído ao chão. Minha primeira reação foi sair de debaixo daquela árvore, lembrei que sobre mim haviam jogado pedaços de galhos, voltei novamente até onde eu me sentei à procura de pedaços de galhos secos, encontrei vários, mas um deles me chamou a atenção, pois uma de suas pontas parecia mastigada.

Meu corpo se arrepiou por completo ao tocar este pedaço de galho. Eu que alimentava a ideia de que tudo não passara de um sonho, me vi diante de fatos que poderiam ser verdade ou não, mas a verdade era que havia um ninho ao chão, poderia ter sido o vento que o derrubou, poderia, mas também havia um galho que parecia roído em uma das pontas, poderia ser algum bicho, mas me lembrei que o que manda questionara o que tem a coragem da mania que ele tinha de roer as pontas dos galhos secos que mantinha em suas mãos. De repente, percebi que poderia ser verdade toda a conversa que ouvi e toda a ameaça pela qual passei. Tudo é possível, existem coisas que nossos olhos não conseguem enxergar, mistérios que não temos a capacidade para desvendar, foi real ou não. Não sei, parecia real. As coisas que encontrei no chão onde estive são reais também não importa, pois jamais vou dormir debaixo de uma figueira novamente.,
Peguei o ninho e o pedaço de galho e os coloquei sobre o tronco da árvore, pedi desculpas e me retirei. Às vezes ouvimos histórias contadas pelos mais antigos e não acreditamos, meus pais contavam histórias sobre as figueiras, histórias contadas a eles por seus pais. Árvores frondosas e solitárias, cresciam sempre em lugares isolados, longe de outras árvores. Imponentes, destacavam-se por serem enormes. Eu nunca levei a sério aquelas histórias de que estas árvores eram habitadas por espíritos ruins, agora penso diferente e até me arrisco a dizer que existem mesmo espíritos que fazem delas sua moradia e que não gostam de invasores usando da sombra e da paz que se tem abaixo de seus galhos. Pode até ser que em algumas dessas figueiras espíritos ruins as habitem, porém sobre a que eu me sentei e adormeci, os espíritos que se manifestaram não eram maus, mas sim egoístas e atrapalhados. Majestosa como é a figueira, doravante eu só a verei de longe, não me arrisco a viver o sufoco pelo qual passei ao adormecer sobre a proteção de seus galhos, verdade ou não, mais uma história sobre as figueiras, a minha que me arrisco a dizer, É VERDADEIRA.