O Lubizome.
Um grande barulho feito do lado de fora da casa, fez com que
Dorival se preocupasse com sua criação de patos e galinhas. Os
bichos estavam inquietos, lembrou-se de que um de seus amigos teve o
sítio atacado e alguns de seus animais mortos e devorados por tal
bicho que ele, o amigo, acreditava ser um lobo, na verdade um
lobisomem.
Lobisomem ou lobo não iriam devorar seus animais.
Deu um pulo da cama, olhou para o relógio na mesinha da cama, onde
marcava duas horas da madrugada, os bichos continuavam agitados.
Maldito bicho, com que direito atrapalha meu sono, com que direito
quer se alimentar do que é meu, sentira em seu corpo a ira de
Dorival.
Dorival era um dos homens que não temiam nada, um
típico caipira que só acreditava naquilo que seus olhos
enxergassem, enfiou os pés na velha botina de trabalho que sempre
deixava nos pés da cama. Não tinha tempo para colocar sua calça,
saiu como dormia, de ceroulas, pegou a velha cartucheira e saiu para
o quintal.
----- Era uma noite de lua cheia que facilitava sua
visão, o galinheiro ficava a uns trinta metros da casa, com passos
ligeiros se aproximou, os bichos continuavam agitados.
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Droga, por que não peguei um lampião? Como vou enxergar alguma
coisa nesta escuridão? Estas árvores tiram toda a claridade da luz
da lua, e agora o que faço? Vou ter que voltar para pegar um
lampião, mas antes vou até a cerca e faço um pouco de barulho,
quem sabe assim eu consiga espantar tal bicho.
Com o cabo da
cartucheira, bateu várias vezes nos bambus da cerca e resmungou
algumas palavras sem sentido. Em seguida, caminhou de volta para
casa, precisava de um lampião.
Dorival tinha fama de corajoso,
nada lhe metia medo e, por esta razão, ganhou muitas apostas quando
era desafiado na sua coragem. E com esta mesma coragem, Dorival
caminhava de volta quando ouviu um quebrar de galhos secos, ficou
atento e diminuiu sua passada. Outra vez ouviu o barulho de galhos
quebrando, Dorival parou, cartucheira engatilhada aguardava o ataque
de tal bicho.
Por uns três a quatro minutos permaneceu parado e
nada, deu mais uns passos e ouviu de novo o quebrar de galhos,
esbravejou, vamos apareça, seja o que for apareça, não pense que
vou correr, pois não vou, estas terras são minhas e tudo sobre elas
me pertence e ninguém ou nada vai tirar o que me pertence.
Caminhou
mais um pouco e, de repente, algo foi atirado de dentro do mato em
sua direção e caiu bem a seus pés, era uma cabeça de cabrito.
Dorival olhou para a direção de onde ele supôs que tenha atirado o
pedaço do animal e atirou, o estrondo do tiro ecoou pelo silêncio
da noite como um estrondo de um dique se rompendo. Maldito seja você,
o que for, não vai me fazer correr, juro que não, disse Dorival,
que deu mais dois passos quando escutou bem ao seu lado o uivo forte
de um lobo. Seu instinto de sobrevivência foi mais forte que sua
coragem, deixou escapar de sua mão a cartucheira e se pôs a correr
em direção à casa.
Pela primeira vez se sentiu apavorado e com medo, pela primeira vez em sua vida algo havia lhe metido medo.
Escondidos no meio
do mato Jacinto disse para Tiago, não ti falei que conseguia fazer
Dorival correr, certo mais o que o fez correr foi a cabeça do
cabrito que lhe arrumei. ---- Na verdade, foi toda a encenação que
fizemos, mas ainda não foi o suficiente para você ganhar a aposta.
Ele vai ter que dizer que foi atacado por um lobisomem, certo? Mas
para que isto aconteça, vamos seguir com o plano, vamos assustá-lo
em casa, ele já não tem mais a cartucheira, portanto não corremos
risco de levar um tiro. Você tem certeza de que ele não tem outra
arma em casa? Certeza, então vamos.
Jacinto e Tiago, por
conta de uma aposta entre eles, armarão para cima do amigo. Trouxe a
tal madeira com os pregos com as pontas afiadas, sim, ótimo será
nosso toque final.
Jacinto e Tiago eram vizinhos e amigos de
Dorival. Fizeram uma aposta com outros amigos de que Dorival diria na
frente de todos que foi atacado por um lobisomem e que chegou a
correr do tal bicho para não ser pego por ele. Se refazia do
susto e se revoltou contra o medo que lhe fizera correr. Que droga,
lobisomens não existem, deve ser um lobo que desceu da mata atrás
de comida, mas tenho que considerar que lobos não arremessariam uma
cabeça de cabrito contra ele.
Dorival tentava achar uma
resposta para o que lhe sucedera quando ouviu novamente o uivo do
lobo. Droga, este bicho veio atrás de mim, droga, deixei minha
espingarda lá no caminho e agora?
Sentir medo era algo terrível
para Dorival, ter que admitir esse medo era pior. Ouviu um barulho na
porta dos fundos da casa, meio atordoado com o que estava sentindo,
demorou um pouco para se lembrar do velho facão que usava para
cortar canas e podar pequenos galhos. Precisava tomar posse desse
facão. O barulho era algo estranho, pois lobos não atacam
portas. Em sua cabeça, mais forte ficava o pensamento de que era de
fato um lobisomem o animal que estava do lado de fora da casa,
forçando sua porta querendo entrar.
Do lado de fora da casa,
Jacinto e Tiago se seguravam no riso, imaginando o desespero do
amigo. Jacinto pegou da mão do amigo a tal madeira com os tais
pregos afiados que o amigo fizera, novamente saiu do meio do mato e
caminhou em direção à porta da casa. Antes, ligou novamente o
gravador e fez com que novamente se ouvisse o uivar do lobo, deu um
pequeno espaço de tempo e, com a tal ferramenta na mão, caminhou em
direção à porta da casa do amigo.
Na casa, Dorival procurava por tal facão, droga esta minha
mania de não ter um lugar certo para guardar minhas ferramentas,
onde coloquei esta droga de facão.
Do lado de fora, Jacinto
estava pronto para dar o toque final, ferramenta em punho, pronta
para riscar a porta. A porta dos fundos não tinha fechadura, era
trancada com uma peça de madeira um pouco mais comprida que a
largura da porta, que era encaixada em duas outras madeiras presas
uma de cada lado do portal. Quando trancada, deixava uma folga entre
a tranca e a porta. Era só tocar na porta para se ouvir um barulho.
Jacinto sabia deste detalhe e o usou para causar um efeito maior no
que pretendia fazer, tocou na porta por duas vezes e em seguida usou
a tal ferramenta por duas vezes, deixando profundas marcas na velha
porta de madeira da cozinha do amigo. Dentro da casa, Dorival
havia acabado de encontrar o tal facão quando a porta se mexeu uma,
duas vezes e em seguida ouviu o arranhar de unhas sobre ela, uma,
duas vezes e se fez silêncio.
Durante alguns minutos, ele
permaneceu empunhando seu velho facão, esperando um novo ataque do
bicho à sua porta. Temia que sua velha porta se partisse com o peso
do animal, teria que estar preparado para se defender do possível
lobisomem.
Os minutos foram se passando, o silêncio era total
até que voltou a ouvir o uivado do lobo novamente, só que desta vez
bem distante da casa. Não conseguiria dormir depois do que
passou, do susto pelo qual passou, pegou uma garrafa de pinga que
tinha debaixo da pia, pôs quatro dedos da bebida em um copo e tomou
de um só gole.
Pensando em tudo, as palavras foram saindo de
sua boca em tom alto. Nunca acreditei nestas histórias de
lobisomens, para mim não passavam de histórias, mas o que vivi esta
noite me leva a crer que lobisomens existem.
Já bem afastados
da casa, Jacinto e Tiago fizeram uma nova aposta. Tiago apostou que,
depois de tudo que o amigo passou, ficou o resto da noite acordado.
Então vamos recapitular, apostamos que Dorival confessaria que foi
atacado por um lobisomem, certo? Sim, foi esta a aposta que fizemos
com a turma, se ele não confessar que foi atacado por um lobisomem,
perdemos a aposta sim, e apostamos que ele permaneceria acordado,
certo, certo, mas o que vamos apostar, se você perder me paga uma
rodada de cinco cervejas se eu perder lhe pago cinco, certo, está
feito.
O dia clareou quando Dorival criou coragem e abriu sua porta, nela
encontrou duas marcas distintas que pareciam marcas de unhas.
Caminhou em direção ao galinheiro onde deixara cair sua
cartucheira, queria ver a tal cabeça se era mesmo de cabrito, mas só
encontrou sua velha espingarda e onde estava a cabeça do animal
tinham marcas de unhas como as da sua porta.
Foi até o
galinheiro, tudo estava normal, contou suas galinhas e os patos e
suas galinhas de angola que eram dez, todos os seus bichos estavam
vivos, respirou aliviado olhou para o céu e agradeceu a
Deus.
Jacinto comentou com Tiago: foi ótima sua ideia de deixar
as marcas de unhas no local da cabeça. Jacinto, você sabe que se
Dorival souber que todo o terror pelo qual passou nesta noite foi
arrumação nossa, além de perdermos o amigo, ele virá com tudo
para cima de nós. Esta história é só nossa e morre após as
palavras de Dorival, ninguém pode saber que fomos nós que
planejamos isto tudo.
Dorival estava certo de que havia sido
atacado por um lobisomem, não conseguira encontrar uma outra
explicação quando o amigo Jacinto lhe contara sobre o ataque a seus
animais e falou sobre lobisomens. Ele gozou do amigo, foi preciso
viver todos aqueles momentos para constatar que o amigo tinha
razão.
Todos os domingos, a turma se encontrava para uma
partida de sinuca e algumas rodadas de cerveja. Jacinto sempre era o
primeiro a chegar, seu sítio era o mais próximo da cidade, depois
do sítio dele vinha o de Dorival e em seguida o do amigo Tiago. A
que lê domingo, Dorival foi o último a chegar, sua indecisão de
contar ou não para os amigos o que lhe havia sucedido na noite de
sexta-feira lhe tomara um bom tempo, mas por fim resolvera revelar
para os amigos toda sua terrível experiência e confessar que fora
atacado naquela noite por um lobisomem.
Os amigos Jacinto e
Tiago aguardavam ansiosos pela chegada do amigo, todos estranharam a
demora de Jacinto que sempre foi um dos primeiros a chegar, gostava
de iniciar o jogo, ganhara este direito por um ano após ganhar uma
aposta dos amigos. por fim sua camionete encostou na porta do
bar e ele com um olhar serio, não se sentia muito à-vontade para
confessar para os amigos que pela primeira vês em sua vida sentiu
medo e correu por razão deste medo, mais não era homem de mentir e
assim que entrou logo anunciou ( fui atacado esta noite por um
lobisomem e corri de medo e não me perguntem mais nada ) se
fez silencio ninguém se atreveu a fazer uma pergunta, todos
conheciam o gênio agressivo do amigo , um pouco afastados do grupo
Jacinto e Tiago ergueram os copos discretamente trocaram um olhar de
vencedores e escondido do amigo trocaram um discreto sorriso,
(-conseguimos-) Jorge Soares