sábado, 15 de janeiro de 2011

A Figueira

A Figueira

Estava eu sentado à sombra de uma grande figueira em um lugar isolado, distante de tudo e todos. Não era uma mata, mas um descampado rodeado por pequenas árvores que ali brotaram alguns anos após passar por ali um incêndio que consumiu uma boa parte de tudo.
A Figueira sofreu menos por estar em um descampado, o fogo pouco estrago fez em sua beleza. Majestosa, imponente, ela se destacava isolada, tendo em sua volta somente vegetações rasteiras e eu estava ali pronto para aproveitar do conforto que seus galhos proporcionavam, oferecendo um local refrescante com muita sombra, pois a árvore era imensa. Muitas histórias já foram contadas a respeito destas imponentes árvores, os mais antigos acreditavam que os espíritos do mal têm a figueira como seu talismã e que eles, os espíritos do mal, habitam seu tronco e repousam em seus galhos. Das histórias pouco sei, só sei que é confortante usufruir de sua sombra.

O sol estava escaldante, só um maluco como eu para encarar um passeio deste com um sol tão forte. Sempre gostei destes passeios, quando garoto gostava de invadir as pequenas matas como um explorador, um aventureiro. Minha aventura neste passeio era tirar fotos, gosto de fotografar paisagens, animais, a natureza nos oferece cenários magníficos para serem fotografados e eu estava ali usufruindo de tudo. A própria figueira já estava com sua imagem em minha câmera. À horas em que eu estava fotografando, as pernas já estavam cansadas, foi muita sorte ter encontrado uma sombra tão confortante como a que a imensa figueira proporcionava.
As histórias são histórias, o nome já diz, não iria deixar de aproveitar uma boa e confortante sombra por medo de histórias. Procurei um lugar próximo ao tronco da árvore para me sentar, um lugar que desse para me encostar e esticar as pernas. Respirei fundo daquele ar fresco que me rodeava, uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes, na quarta meus olhos já estavam fechados e a mente solta, livre.
Quem é este? Quem é este? Não sei, teu amigo, não, não, e teu não conheço, não conheço, um intruso. Então ele é um intruso em nossa casa, acho que sim, acho que sim. Escutem todos, quem deu permissão para um estranho usar de nossa sombra, usufruir da sombra de nossa casa? Eu não, eu também não, nem eu, tão pouco eu, eu também não, por um acaso houve um pedido da parte dele a alguns de vocês, não, não, não. Como uma criatura pode invadir a casa alheia assim? Ele é muito atrevido, não, ele é abusado, não, ele é um cretino, ele é um entrão e merece uma lição. O que vamos fazer? Vamos dar um susto nele, de que maneira? Vamos jogar pedras, eu não tenho pedras, vou jogar pedaços de galhos secos. Tudo bem, eu jogo primeiro, não, eu tive a ideia, vou jogar primeiro, quietos todos vocês querem acordar o cara, esqueceram de quem é esta casa, esta casa é minha, cheguei primeiro e tive que lutar por ela, portanto mando em minha casa, eu jogo a pedra. Mas você não tem a pedra, não, mas você tem o galho e vai me dar, eu não vou dar o meu galho, ele é só meu, calado a casa é minha, eu mando ou sai de minha casa. Toma o galho e vê se não erra, pois só tenho este e eu o conheço. Se eu jogar, não vou errar, quanto a você, não sei, ele não te conhece e nem você a ele. Pare de me azarar, eu vou jogar o galho, joga mais, não erra, não enche, se eu errar tenho outro galho. Eu não vou lhe dar meu galho. Gosta daqui? Sim, sim, gosto, então o galho é meu, mas você não conhece o galho e ele não te conhece e você pode errar.
Calem-se todos vocês que vou jogar o galho. Vê se não erra o galho, não te conhece e nem você conhece o galho e você pode errar. Tá bom, tá bom, o galho é teu, tampa ele você, mas vê se não erra o galho e teu você o conhece e ele lhe conhece, mas você pode errar. Mas eu não erro, e se errar, tá bom, tá bom, toma o galho e pode jogar. Eu não tive coragem de abrir meus olhos, mas, mesmo muito assustado, eu ouvia todo aquele diálogo e lutava contra o medo. Queria abrir meus olhos para enxergar os donos daquelas vozes. O diálogo continuou e eu, mesmo apavorado, continuei atento. Silêncio que vou jogar o galho. Uma voz bem distante disse vê se não erra. O que tinha o galho? Respondeu o galho: mora em minha casa, ele vai aonde eu quero. Senti algo cair sobre mim, mas o medo me manteve paralisado, com os ouvidos alerta. Você errou, não eu. Não errei o galho que é fraco, não teve a competência de ferir o alvo. Me dê o outro galho, não, o galho é meu, me dê o galho ou saia de minha casa, tá? Toma o galho, mas vê se não erra.



O diálogo era o mesmo, pareciam confusas, não demonstravam serem ruins, pareciam ser como crianças sem maldade, criaturas inocentes e muito atrapalhadas sem noção do que fazem. Quem tem mais alguma coisa que mora na minha casa? Tenho uma pena respondeu uma das vozes, imediatamente a voz de comando disse e minha. Quem tem mais, eu tenho um ninho, disse uma outra voz. Era possível identificar as vozes, pois eram todas diferentes uma da outra. E meu, me dê, me dê, vou jogar tudo junto, mas vê se não erra a pena, não te conhece, você não conhece a pena assim como não conhece o ninho, e você pode errar. Senti novamente algo cair sobre meu corpo, mas continuei quieto, imóvel. Está vendo, está vendo, você errou outra vez, quietos, e agora, e agora, deixa eu pensar, hum, hum, eu quero o meu galho, eu quero o meu galho, eu quero minha pena, eu quero minha pena, me devolve o meu ninho, você errou, o propósito não foi alcançado, queremos de volta o que é nosso. Tudo bem, se querem, vão pegar, você sabe que não podemos deixar a proteção da árvore, se saímos, deixamos de existir. Então vocês querem que eu deixe de existir, querem ser os donos de minha casa, vou jogá-los ao vento para que se tornem poeira.
Não, não nos destrua, esqueçamos tudo, não queremos mais nossas coisas, queremos continuar vivos. Você precisa da nossa companhia, a solidão enlouqueceria você, você não vai querer se tornar um louco, vai. Tudo bem, tudo bem, esqueçamos agora, quietos, deixe eu pensar. Enquanto o líder pensava, eu ouvia o resmungar dos outros. Eles não se conformavam em ter ficado sem suas coisas. Embora ameaçados pelo líder e tendo concordado com o acontecido, eles continuavam resmungando, só que não incomodaram mais. Achei estranho porque o líder não se importava mais com os resmungos, eles concordaram, mas não pararam de fazer o que estavam fazendo e parecia que o líder não ouvia o que os companheiros diziam em seus resmungos.


Que criaturas seriam estas? Minha mente trabalhava à procura da resposta, mas meus olhos não davam a ela a informação que precisava para desvendar tal mistério. Eles não podiam tocar ao chão, isto eu já sabia, se eles tocassem ao chão, se tornariam poeira. Outra coisa que percebi, a árvore é que os protegia, suas vidas sem ela não existiriam. Perguntas vieram à minha mente, como chegaram até ali, ouvi o líder dizer que a casa era dele, que ele havia lutado muito para conseguir ter sua casa, lutou com quem, contra quem se não podia deixar a árvore estranha. De repente, o líder falou: parem, parem, vocês não se cansam de ficarem discutindo algo que não tem solução? Vocês não são mais os donos das coisas, tudo agora pertence ao chão, assim como nós. Se fazem tanta questão de terem de volta aquelas porcarias, se elas têm mais valor para vocês que sua liberdade, peguem de volta o que querem, eu não, nem eu, tão pouco eu, então quietos pensei e acho que descobri um jeito de castigar o intruso. Qual, qual, qual, vamos pescar sua alma, pescar sua alma, pescar sua alma, pescar sua alma, sim, vamos pescar sua alma, mas como vamos fazer isto, como, como, como, prestem atenção, vou explicar a vocês, mas é perigoso, vocês terão que ter coragem. Tenho coragem, eu também tenho, eu sou o mais corajoso.
Eu sentia todo o meu corpo tremer, estava apavorado, meus olhos pareciam colados e quase não respirava. Quem são estas criaturas, o que são e por que são tão egoístas, que mal tem alguém descansar na sombra de uma arvore, eles não são os donos da arvore não tem o direito sobre ela pensei. Diz, diz o que vamos fazer para pescar a alma do intruso. Prestem atenção não vou ficar repetindo e não me interrompam quando eu estiver falando, pois fale,fale,fale, será preciso dois de nos para cada tentativa, primeiro vai o mais corajoso junto com o primeiro que tem a coragem, o que vamos fazer. Só existe uma maneira de pescar a alma do intruso, quando ele respirar Sua alma sai do corpo para pegar ar, ai e a hora que vocês atacam. Mais por que temos que ser dois se a alma e somente uma, porque um presta a atenção na boca ele pode respirar por ela o outro presta atenção no nariz pode respirar por ele e quando vocês a pescarem será preciso os dois para dominar ela. Porque dois de nos para somente uma alma. Querem mesmo saber, eu quero, eu também quero, nos queremos respondeu uma voz que pouco falava e mais ouvia. Se querem eu falo, e que ele pode ter a alma pesada e pode nos levar ao chão. Não estou entendendo disse o que pouco falava,explique direito e fale dos riscos, pois o plano e teu a idéia e tua mais a vida e deles.



Pois bem, e preciso de dois: um para vigiar sua boca, o outro seu nariz, pois, como já disse, ele pode respirar tanto por um como por outro, e preciso de dois porque sua alma pode estar pesada, ela não é como nós que mantemos nosso peso. A alma humana varia de peso de uma para outra, mais por causa do pecado, mas o que é o pecado, fala diz queremos saber. Novamente, o que pouco falava tomou a palavra. Pecado e a falta de inocência são os desejos, as tentações que conduzem a praticar o mal, assim como o que vocês vão fazer com o estranho.
Eu podia pôr fim a tudo, era só abrir os olhos, me levantar e sair de debaixo da árvore, mas não conseguia me mover, meus olhos estavam travados de tanto medo, pareciam colados, por mais que me esforçasse não conseguia abri-los. Eu já estava apavorado após ouvir o que eles pretendiam fazer comigo. Me deixou completamente aterrorizado ao ponto de urinar em minha roupa, sim, o pavor era tanto que o medo me fez me molhar todo. Pescar minha alma quando eu respirar, minha alma deixar meu corpo à procura de ar, isto existe? Será que é assim que acontece ou ele sabe que estou acordado e está falando para me assustar? E se ele não souber e estiver falando com intenção de fazer, e se eles pescarem mesmo minha alma, o que acontecerá comigo? Estas perguntas cresciam dentro de minha mente, o que fazer? Pensei, pensei e só encontrei um caminho: rezar, rezar, rezar. Só mesmo com a ajuda divina eu conseguiria me livrar do domínio do medo e abrir meus olhos, o diálogo continuou.
Escutem, prestem bastante atenção, você que tem coragem e você, o mais corajoso, não dê ouvidos ao outro, ele é medroso e quer que vocês tenham receio assim como ele tem. O que vamos fazer não tem nada a ver com o pecado, só vamos dar um susto nele, só um susto. Eu não quero pecar, eu também não, e nem tão pouco eu, eu já falei que ninguém vai pecar, o que não podemos é deixar o desconhecido tomar nossa sombra sem nos ter pedido. Vamos dar um susto nele sim, vamos, vamos, eu também quero participar, disse o terceiro. Pois bem, escutem, você que tem a coragem com você, o mais corajoso, vão fazer o que falei, vão descer até ele e ficar um de cada lado, você que quer participar vai assoprar bem forte em sua boca, o nariz e onde sua alma vai sair, vocês dois prestem atenção no nariz quando a alma dele sair para respirar, vocês a agarram, a que Le que segurar primeiro irá precisar da ajuda do outro, mas não a deixe escapar. Não, não contem comigo, não sou moleque para brincar de assustar os outros, disse o que pouco fala. Você vai soprar na boca do intruso, não falou que quer participar, não quero mais. E não vai ter certeza, pois bem, todos têm que fazer alguma coisa, eu sou o dono da casa e sou eu quem dá as ordens. Você dá as ordens e o que você vai fazer? Achar graça e se esconder. Não seja arrogante, me tua liberdade e também o teu conforto de habitar o topo, perdeste o medo de altura, olha que posso colocá-lo cá em Baixo. Não faço, eu faço, pois bem.


Fez-se novamente silêncio, as vozes pararam, mas continuei lutando para me livrar de todo aquele tormento, sabia que era só sair de debaixo daquela árvore, mas meu corpo parecia colado ao tronco, era como se a árvore estivesse me abraçando, me mantendo preso a ela. De repente, me veio um pensamento: será que a árvore me mantém preso a ela justamente para incomodar seus ocupantes e forçá-los a deixá-la? Mas se assim for, eu estou perdido, pois pelo que ouvi da conversa deles, não deixaram a árvore nunca, pois se deixarem teriam que voltar para o lugar de onde vieram e isto eles não queriam, eles se sentem bem na proteção da árvore. Já sei o que fazer para ajudar, disse uma quarta voz, então diga, diga, diga, fale logo, pois bem.
As vozes novamente se fizeram ouvir em um diálogo quase sempre sem sentido, eles não citam nomes, se dirigem uns aos outros pelo que falam de si como mais corajoso, quem tem a coragem, ele é medroso, o do alto, dono da casa, e desta maneira que se comunicam entre si. Não tem nomes próprios, era como se não existissem uma sombra falante, espíritos falantes, não eram de natureza ruim, maldosos nas suas brincadeiras, o que estavam fazendo comigo era pura e simples brincadeira, egoístas por não aceitarem ninguém usando da sombra da árvore que consideram sua casa. Mesmo tão apavorado como estava, consegui pensar nas atitudes deles para comigo e deduzir que não eram criaturas más, mas sim atrapalhados e confusos, e que a conversa de pescar minha alma era pura brincadeira, só que eu não tinha a certeza e por isto nada mudou em relação ao medo que estava sentindo.


Vamos, diga como você vai participar, você que fala pouco, mas também fala muito e que mora no alto. Vou tomar o lugar de sua alma quando ela for agarrada, vou entrar em sua casa e assustá-lo por dentro. Muito boa esta minha ideia, disse o que liderava, respondeu o outro, mas a ideia é minha, mas sou o dono desta casa, somente eu tenho o direito a pensar e sem o pensamento não se tem ideias, portanto a ideia é minha.
Eu continuava lutando contra meu medo com toda minha força mental, queria e precisava me livrar daquela situação, mas tudo em vão, não conseguia abrir os olhos e nem tão pouco me mexer, ouvia tudo e nada podia fazer a meu favor. Eles estavam prestes a me atacar de uma maneira que iria me causar uma imensa dor, agarrar minha alma, entrar no meu corpo, isto deve doer muito, muito. Não pode ser verdade, eu só posso estar sonhando, só pode ser um sonho. A voz se fez ouvir novamente; escutem todos vocês, quero que me digam o que vamos fazer com o estranho todos nós juntos. Vamos dar um susto nele. De que maneira cada um fala o que vai fazer. Eu que tenho a coragem vou vigiar sua boca, eu que sou o mais corajoso vou vigiar seu nariz, eu que também tenho coragem vou soprar em sua casa e eu que pouco falo e falo muito e moro no alto vou invadir a casa de sua alma. Pois bem, todos sabem o que fazer, mas não se esqueçam, se tocarem ao chão, voltam de novo para a terra, portanto cuidado, muito cuidado, agora vão.
Meu Deus, estou perdido sem vossa ajuda, me salve. Eles vão pegar minha alma e entrar no meu corpo, vão roubar minha vida e eu não quero morrer aqui sozinho debaixo desta árvore, Deus não permita que eles consigam realizar suas tarefas, me diga o que fazer para que eu possa acordar e me livrar de tudo isto. Senti a presença deles a meu lado, não respiravam mais, eu sentia o cheiro de poeira que só podia ser o cheiro deles. Eles vão me atacar, o que fazer se eu respirar? Eles pescam minha alma, não posso respirar, tenho que segurar minha respiração até eles desistirem.


Escutem todos, quando eu falar já, ataquem, um, dois, três e já. Prendi minha respiração durante o tempo, durante o tempo que fiquei sem respirar, continuei ouvindo as vozes das criaturas. Cadê, cadê a alma dele que não sai? Uma outra voz indagou: será que ela nos viu? Será, será, o outro que falava pouco disse, ele dorme, mas seu espírito nunca dorme, e a sua proteção. E se ele nos atacar, perguntou o que tem coragem, e se o espírito dele nos atacar e nos atirar ao chão, aí estaremos perdidos, seremos pó novamente e eu não quero ser pó novamente, nem eu disse o outro, eu também não disse o terceiro.
Quietos, quietos, não tumultuem as coisas, você que mora no alto, não tire a coragem dos mais corajosos e nem tão pouco do que tem a coragem, não assusta o que pouco fala, escutem todos vocês, temos que castigar o intruso, hoje ele deita à sombra de nossa casa, amanhã ele volta e derruba nossa casa, vocês querem isto? Não, não queremos perder nossa casa, pois bem, então vamos fazer o que nos combinamos. Novamente se fez silêncio e eu ali sem respirar, não aguentaria por muito tempo aquela situação. O que somos capazes de fazer quando nos sentimos ameaçados, coisas que nos surpreendem, uma força que desconhecemos emerge da nossa natureza e nos fortalece, capazes de ultrapassar nossos limites em proteção à nossa vida. As vozes novamente pude ouvi-las, eles resmungavam entre si, consegui identificá-los pelo tom da voz que era muito diferente uns dos outros, ouvi a voz do que pouco falava. Escutem, escutem, não estou gostando nada disso, só nós e quem nos arriscamos, já pararam para pensar que podemos ser prisioneiros novamente se formos atirados ao chão e se o que comanda quiser ficar com a casa toda só para ele, o que faria? Faria justamente o que está fazendo, nos mandando para uma missão suicida onde podemos ser devolvidos ao vento. Eu não quero mais fazer isto, eu também não, nem eu tão pouco, o que faremos? Perguntou o mais corajoso. Nada, nada respondeu o que pouco fala, mas a casa é dele, disse o que tem coragem, mas ele está só e nós somos quatro, resmungou o que fala pouco, ele é o dono da casa, mas juntos temos a força e juntos podemos mandar na casa dele.
Eu não quero voltar a ser poeira, disse o que tem medo, então vamos agir, disse o que pouco fala. Eu estava no meu limite, me sufocava o não respirar, porém o medo deles pegarem minha alma e invadirem meu corpo me manteve além de minhas forças na difícil missão de não respirar, mas como tudo tem um limite, o meu limite foi alcançado e na ânsia da busca pelo ar me engasguei e neste exato momento meu corpo reagiu e de um salto me pus de pé. Assustado e perdido de pensamento, levei alguns segundos para perceber que tudo havia acabado, que eu estava de pé e havia acordado. Olhei para cima à procura dos donos das vozes que me atormentaram, me deixando apavorado e não enxerguei nada a não ser os galhos se movendo com o vento e suas folhas  acompanhando seus movimentos, olhei em minha volta à procura de algo que pudesse esclarecer se foi sonho ou realidade o que passei, o que vivi por alguns minutos e me deparei com um ninho caído ao chão. Minha primeira reação foi sair de debaixo daquela árvore, lembrei que sobre mim haviam jogado pedaços de galhos, voltei novamente até onde eu me sentei à procura de pedaços de galhos secos, encontrei vários, mas um deles me chamou a atenção, pois uma de suas pontas parecia mastigada.

Meu corpo se arrepiou por completo ao tocar este pedaço de galho. Eu que alimentava a ideia de que tudo não passara de um sonho, me vi diante de fatos que poderiam ser verdade ou não, mas a verdade era que havia um ninho ao chão, poderia ter sido o vento que o derrubou, poderia, mas também havia um galho que parecia roído em uma das pontas, poderia ser algum bicho, mas me lembrei que o que manda questionara o que tem a coragem da mania que ele tinha de roer as pontas dos galhos secos que mantinha em suas mãos. De repente, percebi que poderia ser verdade toda a conversa que ouvi e toda a ameaça pela qual passei. Tudo é possível, existem coisas que nossos olhos não conseguem enxergar, mistérios que não temos a capacidade para desvendar, foi real ou não. Não sei, parecia real. As coisas que encontrei no chão onde estive são reais também não importa, pois jamais vou dormir debaixo de uma figueira novamente.,
Peguei o ninho e o pedaço de galho e os coloquei sobre o tronco da árvore, pedi desculpas e me retirei. Às vezes ouvimos histórias contadas pelos mais antigos e não acreditamos, meus pais contavam histórias sobre as figueiras, histórias contadas a eles por seus pais. Árvores frondosas e solitárias, cresciam sempre em lugares isolados, longe de outras árvores. Imponentes, destacavam-se por serem enormes. Eu nunca levei a sério aquelas histórias de que estas árvores eram habitadas por espíritos ruins, agora penso diferente e até me arrisco a dizer que existem mesmo espíritos que fazem delas sua moradia e que não gostam de invasores usando da sombra e da paz que se tem abaixo de seus galhos. Pode até ser que em algumas dessas figueiras espíritos ruins as habitem, porém sobre a que eu me sentei e adormeci, os espíritos que se manifestaram não eram maus, mas sim egoístas e atrapalhados. Majestosa como é a figueira, doravante eu só a verei de longe, não me arrisco a viver o sufoco pelo qual passei ao adormecer sobre a proteção de seus galhos, verdade ou não, mais uma história sobre as figueiras, a minha que me arrisco a dizer, É VERDADEIRA.