domingo, 23 de maio de 2010

Nos Braços da insegurança

Nos braços da insegurança.



Ricardo discutiu com Tereza por ciúmes da jovem mulher. Companheira de muitos anos de convivência, não eram casados, mas estavam juntos como marido e mulher.
Ricardo, com uma boa diferença de idade, passou a ter insegurança em relação à fidelidade da companheira, que, por sua vez, se sentia ofendida, magoada com as atitudes do companheiro.
Tereza era uma mulher simples, não era mulher de luxo, de extravagâncias e nem precisava, pois era bela por natureza. Não tinha muita instrução, mas sempre correta nas atitudes, decidiu não mais tolerar tal situação, juntou suas melhores roupas dentro de uma mala e deixou sua casa. Precisava de um tempo para aquietar seu coração para a difícil decisão de continuar ou não ao lado de seu companheiro a quem sempre amou.
Ela sabia que Ricardo a amava e que, apesar de tudo, ele sempre foi um bom marido. Nunca levantou um dedo sequer contra ela, mesmo nos seus momentos de crises de desconfianças, mantinha suas mãos sempre abaixadas, até mesmo quando sua voz a agredia com palavras que a magoavam, suas mãos não se levantavam contra ela.
Tudo começou com um comentário de um amigo, um comentário sem intenções maldosas. O amigo só queria zoar com Ricardo, que levou a sério o comentário do amigo que lhe disse que ele, Ricardo, estava muito velho para mim, que eu parecia uma garotinha e muitos olhares eram direcionados à minha pessoa, olhares carregados de pensamentos maliciosos e desejos pervertidos.
Ricardo rompeu a amizade com o amigo e desde então passou a desconfiar de tudo e todos.
Muito infeliz foi a brincadeira, o ressentimento foi tão grande que afetou nossa vida e o que era felicidade passou a ser um pesadelo conviver com tanta desconfiança de quem sempre confiou.
Tínhamos uma vida divertida e tranquila, frequentávamos os bailes nos fins de semana, onde sempre encontrávamos um grupo de amigos e juntos vivíamos muitos momentos de felicidade.
Depois deste incidente, não nos reunimos mais, não voltamos mais aos bailes, não tínhamos mais amigos, pois Ricardo rompeu com todos.

Nossa vida passou a ser eu e ele, sentia falta da vidinha gostosa que tínhamos juntos, do nosso grupinho de amigos.
Fora mais de dois meses suportando os ciúmes do marido, vigiada em todos os seus movimentos, onde olhava, lá estavam também os olhos de Ricardo, sempre atentos e vigilantes.
Ofendida e humilhada por ter sua dignidade posta em dúvida, resolvera dar um tempo na relação.
Sobre a mesa, deixou uma carta ao marido e nela citava os motivos que a levaram a tomar tal atitude e deixava claro que ele não estava desistindo da vida que tinha a seu lado, só não dava para continuar assim, e que ele precisava, assim como ela, de um tempo para refletir.
Na carta, citou a ele situações que viveram no início do relacionamento, em que ela fora assediada por tantos homens que se encantaram com sua simpática maneira de tratar todos e se confundiram na interpretação, se sentindo encorajados a se aproximarem com segundas intenções.
Dizia na carta a respeito desta passagem.


Tive todas as oportunidades naquele tempo e não seria difícil para mim ter um relacionamento com qualquer um desses meus admiradores, pois eu não sentia nada por você, só o estava conhecendo. No entanto, fui correta, fui honesta e, quando não consegui me livrar de um admirador persistente, recorri a você. Quer prova maior que esta de minha honestidade? E veja bem, eu acabava de lhe conhecer, não sentia nenhum sentimento por você.
Hoje lhe digo que lhe amo e mesmo assim você duvida de minha honestidade, pois lhe digo que você precisa de um tempo para se curar deste preconceito que se apossou do teu corpo de homem, lhe fazendo se sentir menos homem, menos capaz de ser para mim o homem que sempre foi e nunca deixou de ser.
Quanta insegurança se perturbar com uma simples brincadeira de um amigo confiável e que se brincou deste jeito era porque não esperava de você tal reação. Confiava na tua confiança em relação a mim e você nos decepcionou, pondo para fora este teu lado tão sem propósito, desconfiando do meu amor, da minha fidelidade e da amizade de um grande amigo que só queria te zoar.
Ela não revelou onde pretendia ficar, só se despediu dizendo.
Aprenda com minha distância a confiar novamente.
Ricardo se sentia infeliz, nunca havia experimentado tal sentimento em toda sua vida e nem conseguia entender de onde surgira tal insegurança. Sempre se sentiu capaz e seguro em relação ao seu relacionamento com Tereza.


Sempre tiveram uma vida sexual ativa, sempre se entenderam bem em uma união sólida e farta nos deveres e compromissos, não conseguia entender o porquê de tal insegurança.
Fora mais um dia de trabalho, seria um dia como todos os outros se não fosse o martelar de seus pensamentos a procurar por uma resposta e o arrependimento sobre o tratamento que vinha dando à sua querida esposa. Sentia-se envergonhado com todas as atitudes e precisava pedir perdão e se esforçar para não cometer novos deslizes por falta de confiança.
Tinha tudo planejado em sua cabeça: levaria umas flores, ela gostava de violetas, levaria para ela as mais belas violetas e também uma caixa de bombons, ela adorava bombons. Tudo estava planejado em sua mente. Assim que deixou o trabalho, passou na floricultura e comprou um lindo buquê de violetas, depois uma caixa de bombons e se pôs a caminho de casa. Caminhava com pressa, estava ansioso e saudoso em rever sua amada. Precisava lhe pedir perdão e lhe prometer jamais voltar a ter dúvidas de seu amor por ele e tão pouco de sua honestidade e fidelidade.
Estava feliz quando entrou em casa chamando pelo nome da companheira, o coração batia uma batida acelerada, era a ansiedade de desfrutar dos momentos de poder ver nos olhos da companheira a felicidade de ter de volta o companheiro arrependido e disposto a se corrigir, pedir perdão por todos os momentos de constrangimentos que a fez passar e se comprometer a procurar por todos os amigos e se desculpar.


Por várias vezes chamou pelo nome, Tereza, e dela não obteve nenhuma resposta. Se pôs casa adentro a procurar por ela, mas a casa estava vazia. Sentiu que algo estava errado, um sinal de alerta. Nunca em sua vida acontecera de chegar a casa e não encontrar a esposa.
Foi direto ao quarto, pois poderia estar dormindo, mas a cama estava vazia. Sobre ela, algumas peças de roupas, porta do armário aberta, sentiu suas pernas tremerem e deixou o corpo arriar sobre a cama. Toda sua alegria dera lugar a uma profunda tristeza, Tereza havia partido, foi embora, não suportou o tratamento desumano que ele havia imposto sobre ela.


A ausência da companheira fez com que ele se entregasse ao choro, algo que há muito não fazia em sua vida. Chorou, e ali ficou por mais de horas se lamentando de tudo e odiando a vida, se odiando por não ter parado e refletido no tempo certo.
O que fazer como viver sem a presença de Tereza? Onde estará ela?
Depois de muito choro e lamentações, Ricardo deixa o quarto em direção à casinha e lá encontra a carta deixada por Tereza.



Emocionado, pegou com mãos trêmulas aquela simples folha de papel que poderia conter palavras que poderiam aquietar seu sofrido coração ou o jogar a uma profunda depleção.
Após ler várias vezes o conteúdo da carta, seu coração foi aos poucos se aquietando ao sentir no que estava escrito que tinha uma grande chance de ter de volta em sua vida sua amada esposa.
Releu por várias vezes a parte da carta que ela se referia à sua insegurança e se deu conta de quanto foi estúpido, tinha a melhor mulher que um homem podia ter e por uma crise de ciúmes e insegurança estava a um passo de per dela.
Um novo ânimo, ela iria voltar. O amor que ela sentia a traria de volta. Sentiu que precisava fazer algo para garantir que não voltaria a se sentir ameaçado pela desconfiança que sentiu ao pôr em dúvida a lealdade da esposa, então decidiu procurar ajuda médica.
Procurou pelos amigos um a um e se desculpou, revelou a eles todo seu arrependimento e sua vergonha por tamanha atitude e conseguiu que todos o perdoassem. Só restava esperar pelo perdão de Tereza.
Os dias foram se passando e a ansiedade se tornando cada vez mais dominante, mas a esperança continuava forte em seus pensamentos, ela vai voltar, estas palavras eram repetidas todo dia a toda hora.
As flores já não existiam, pois o passar do tempo se encarregou de pôr um fim a toda a sua beleza. Só restaram os cabos como prova de sua existência, os bombons, estes sim, estavam guardados na geladeira à espera de sua dona que tanto demorava a voltar para casa.
Perdido em pensamentos, Ricardo teve sua mente invadida por uma ideia que poderia dar certo, um meio de se comunicar com a esposa, Lembrou que ela não deixava de assistir certo programa de rádio que era levado ao ar diariamente pela manhã, então resolveu escrever uma carta contando toda sua história e solicitando imploradamente que ela voltasse, na carta contando das visitas ao médico, da reconciliação com os amigos e da imensa falta que ela estava fazendo à sua vida, por fim implorou pela sua volta.
Na manhã seguinte, ele mesmo foi até a rádio com sua carta na mão e esperou ansioso o momento de fazer seu pedido ao locutor que apresentava tal programa.


A ele contou sua história e por ele foi convidado a falar pessoalmente no ar e fazer seu pedido, e assim o fez. Leu pessoalmente sua carta, depois abriu seu coração, declarando a todos que escutavam tal programa a dimensão do amor que sentia por sua Tereza e pediu, implorou a ela que o perdoasse e que a esperava em casa para voltar a ser feliz.
Foi um dia de trabalho como todos os outros, com uma única diferença: estava feliz, pois tinha o pressentimento de que algo de bom iria acontecer na sua volta para casa.
Um cheirinho gostoso de um perfume conhecido estava por toda a casa. O cheiro vinha da cozinha, sobre a mesa estava uma panela fumegante e era dela o tal perfume gostoso, uma feijoada que deixava por toda a casa seu perfume delicioso.
Do quarto, ouvi uma voz que o chamava, pedia minha presença, eu estava de volta para minha vida.
Tereza, sobre a cama, me esperava. Nada vestia, a não ser um sorriso de alegria que envolvia todo seu rosto. De braços abertos, me convidou a deitar, me desfiz de todas as roupas e atirei-me em seus braços para um novo começo. Um longo beijo selou um novo tempo, eu voltava a ser feliz.
No meu ouvido, ela falou baixinho: Querido, querido, o que você está esperando?

A comida vai esfriar e eu detesto feijoada fria. Sorri para ela e deixei-me ser levado pelos braços da nova felicidade que estava de volta para mim.





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