sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

IMENSIDÃO DA FLORESTA

 IMENSIDÃO DA FLORESTA.


Era uma bela manhã de primavera, o sol deslizava toda sua força de luz sobre as folhas das árvores. De onde eu estava, podia contemplar o poderio desta força divina sobre toda a criação. DEUS nos presenteou com tantas coisas belas e eu não me cansava de todos os dias, ao raiar do dia, me sentar sobre a imensa pedra de onde enxergava toda a imensidão da floresta. Meu nome é Mataiaka, sim, sou um indígena nascido e criado nestas imensidões de floresta, mas não vivo com meu povo, me isolei de todos, construí minha morada no topo desta montanha e me sinto feliz aqui.


A primeira vez que estive aqui foi com meu pai. Eu era garoto e meu pai, como presente por mais uma lua de vida, me trouxe ao topo desta montanha e daqui me encantei com a grandeza que meus olhos tinham sobre o topo das árvores, onde minha visão não conseguia alcançar o fim.
Encantei-me, meus olhos se encantaram com aquele lugar no meio da floresta, parecia um altar criado por DEUS de onde podia enxergar a imensa floresta e me fazia pensar sobre mim e todas as criaturas que vivem sob a proteção das imensas árvores.
Meu amor por aquele espaço nasceu no momento em que acordei com o chamado de meu pai. 

Mataiaka, o sol começava a despontar, os raios do sol tocavam com sutileza o topo de todas aquelas árvores. Você precisa ver isso. Em qualquer direção que você olhar, só enxergará um imenso tapete verde que brilhava com a luz do sol. Naquele exato momento, me apaixonei pelo lugar e prometi a mim mesmo e à montanha que seria ali que, no futuro, iria morar.


Meu pai era o líder da tribo e eu seu primeiro filho, e caberia a mim, após sua partida, tomar conta de meu povo, tomar todas as decisões para o bem-estar de todos, zelar pelas tradições e, enfim, seguir com sabedoria os ensinamentos de meu pai.
Eu tinha vinte e três anos quando meu pai se foi, não tive um dia mais triste do que aquele, só tive outros momentos parecidos quando vi uma parte de minha imensa floresta queimando sob a ação do homem.


Nossa tribo não vivia nas profundezas da floresta, tínhamos nosso habitar ao alcance da civilização. Lembro que certa vez recebemos a visita de um grupo de pessoas que, se não me engano, eram historiadores. Queriam conhecer nossos costumes, meu pai os recebeu, só não permitiu que acampassem entre nós, foi uma sábia decisão.



Não consegui entender seu comportamento, porém hoje sei o porquê: descobri agindo diferente de meu pai, permitindo a presença de estranhos entre nós.
Não tive a sabedoria necessária, não segui o exemplo de meu pai ao permitir que entrasse e permanecesse por mais de dois meses entre nós um grupo de pessoas que, como naquele tempo se dizia, historiadores.


Foram tempos difíceis, não pelas pessoas, mas sim pelos costumes e a influência do mau hábito dos visitantes, fumo, bebidas, um bom número de guerreiros e suas mulheres acabaram se contaminando com os costumes daquela gente e eu nada pude fazer pois nunca tive o dom da liderança, minha esperança era que tudo voltasse ao normal após a partida de todos.


Havia umas mulheres no grupo, uma delas era bem jovem e estava sempre por perto, era a mais curiosa, perguntava sobre tudo, parecia encantada com o meu pequeno imenso mundo, senti vontade de convidá-la a conhecer minha montanha, tinha certeza de que assim como eu ela também ficaria encantada.
Os dias passaram rápidos, mas os estragos que minha liderança fizera nos costumes de alguns do meu povo foram terríveis e não tinha como corrigir, pois o vício tomara suas almas.


Eu tinha sempre por perto a curiosa figura da jovem mulher que me enchia de perguntas, parecia gostar de mim, mas eu, na minha inocência, ainda não havia olhado para ela como uma mulher. E naquela manhã, quando fui até o riacho onde todas as manhãs, como em um ritual, jogava meu corpo sobre aquelas águas, notei a presença de alguma coisa se movendo no rio. Pensei ser uma onça ou outro bicho qualquer, mas quando cheguei mais perto pude ver a figura de Eloísa nua se banhando, me senti hipnotizado com tamanha beleza. Pela primeira vez a enxerguei como mulher, ali naquela manhã começou nosso romance.
Era uma manhã como todas as outras, só que os visitantes estavam prontos, era hora de partirem. Esta era a diferença deste dia para todos os outros e eu estava ansioso, precisava tentar corrigir o estrago que fiz ao permitir a presença de todos vivendo estes dois longos meses entre nós.


Meu coração estava vivendo um momento de pura angústia, pois sentia que não teria mais a presença de Eloísa ao meu lado.
Eu não acreditava no sentimento dela para comigo, deixar sua vida civilizada para viver como bicho no meio do nada, que para mim era tudo. Não acreditava que fosse capaz de tamanho ato, mas me enganei quando não a vi com todos os outros com suas bagagens e todos os seus pertences.


Ela ficou nos casamos à moda indígena, não poderia ser diferente. Os mais velhos da aldeia foram contra, mas minha posição de líder fez com que se silenciassem.

Os costumes e a tradição tinham que ser respeitados e logo me vi na obrigação de respeitar. Tinha que deixar meu comando, não podia continuar a liderar meu povo sendo que a maioria não concordava com os rumos que tomou minha vida.
Eu tinha um meio-irmão que assumiu a liderança de meu povo. Este sim tinha o dom de liderar, coisa que eu não tinha, mas que por tradição, por costume, por lei da tribo, o posto de líder me pertencia e tive que assumir.
Continuamos a viver entre os meus, mas meu coração, morada de meu espírito, sempre me levava em pensamentos ao topo da montanha e, com o passar do tempo, se tornou tão forte em mim o desejo de viver naquele lugar que mudamos nossa vida para o alto daquelas pedras de onde podíamos enxergar todo o nosso mundo e a floresta.


O progresso estava a um passo da tribo, fazendeiros estavam derrubando a mata para fazerem pastos, eu vi com meus olhos árvores centenárias tombadas ao chão com seus troncos partidos, seus enormes galhos separados do corpo, chorei pelas vidas de tantas árvores, chorei pelo buraco que iria enxergar no tapete verde que o sol fazia brilhar todos os dias no raiar do dia aos meus olhos enxergar.


Meu povo deixou aquele lugar onde centenas de luas viveram, todos nossos antepassados estavam enterrados ali naquelas terras que tivemos que abandonar, era preciso se afastar do povo civilizado e de todos os teus vícios, e foram para mais distante mata adentro.
Nossas visitas se tornaram menores, antes ficávamos mais próximos. Eloísa visitava a aldeia duas vezes por semana, onde ensinava os jovens guerreiros a arte de juntar as letras. Aprendi com ela e, graças a este saber, consegui, juntando minhas palavras, escrever, contar esta minha história.
Muita tristeza meus olhos presenciaram, muitos de meus irmãos, que foram deixados para trás por culpa minha, a mudança de meu povo para longe das terras de nossos antepassados. Mas nada me doeu mais que ver minha casa ser invadida por máquinas estranhas que arrancavam as árvores com suas raízes, fogo queimando a mata toda, uma destruição para plantarem mato.


Aprendi com minha mulher a entender a necessidade que o homem tem de destruir pela desculpa do construir. Destrói a mata para construir cidades, construir lavouras, pastagens, represas. Entendo, mas não compreendo com tantas terras, cem árvores prontas para serem ocupadas por pastagens, tantos espaços livres de matas para serem construídas as cidades, por que destruir as florestas, por quê?


Não consigo entender a sede de destruição que embala o coração dos homens.

Sou feliz com minha mulher neste meu pequeno, mas imenso mundo, longe de tudo e ao mesmo tempo perto de tudo. A família cresceu nestes cinco longos anos, hoje somos quatro, temos um casal de filhos que acredito que no futuro estará no meio dos civilizados, quem sabe tentando defender as florestas deste imenso Brasil.


A minha visão da mata continua intacta, nada mudou, continuo a enxergar o mesmo tapete verde de quando ainda era uma criança, mas estou sempre preocupado com o futuro e me pergunto em pensamento até quando toda esta beleza necessária continuará assim livre das mãos dos homens. Difícil saber, pois a ganância e a sede de destruição dos que se dizem civilizados são maiores que toda esta floresta.





Nenhum comentário:

Postar um comentário